Dentro de todos nós Antes de virar filme pelas lentes de Spike Jonze (Quero Ser John Malkovich), Onde Vivem Os Monstros era “apenas” um livro infantil ilustrado. Na verdade, um clássico, sucesso de vendas nos EUA, cercado de elogios pela crítica e rejeitado por educadores. Em poucas palavras, que mal preenchem uma lauda, o autor Maurice Sendak nos conta sobre Max, um filho travesso que é mandado para a cama sem jantar. Fechado em seu quarto, o garoto cria um mundo imaginário, povoado por monstros.
Se fosse apenas uma história de ninar, o conto de Sendak já seria perfeito: repleto de lacunas, o texto fornece as circunstâncias, o protagonista, começo, meio e fim. O resto depende da imaginação dos pais e do sono das crianças. Mas não se deixe enganar. Por trás dessa obra pueril, a escrita de Sendak reserva conceitos e uma precisão estilística captados apenas por um público maduro.
O autor escreve prosa como se fosse poesia. No lugar de versos, ele usa as páginas para (des)construir o texto, criar pausas e expressar sentimentos, afinal são dez longos períodos fragmentados entre 37 páginas e 18 painéis. A cadência das palavras reforça seus significados, como no trecho que descreve a algazarra das criaturas durante a chegada do menino ao seu mundo:
“(...) eles rugiram seus terríveis rugidos e arreganharam seus terríveis dentes e reviraram seus terríveis olhos e mostraram suas terríveis garras até que Max disse 'quietos!' (...)”.O ritmo, criado pela métrica e pelo casamento das sílabas tônicas entre uma frase e outra, é praticamente homogêneo, até ser interrompido pela ação do protagonista. A última frase, mais curta, alterna um fonema tônico com outro átono, pontuando uma rispidez ágil e cortante, com uma sonoridade própria. Cada palavra do livro é pensada e medida, segundo os valores que transmite e o espaço que ocupa.
As belas ilustrações em estilo naif acompanham a narrativa exercendo uma função descritiva, característica ausente no texto. São elas que revelam a peculiaridade dos monstros imaginados pelo autor. Um deles lembra um leão, outro se parece com um galo, um terceiro tem pés de pato e assim por diante. São reinterpretações que a criança faz de criaturas conhecidas, porém estranhas ao seu universo.
Tanta destreza ao contar uma história tão curta não foi suficiente para afastar os detratores. Ainda na década de 1960, quando foi escrito, o livro foi excluído de diversas bibliotecas norte-americanas e psicólogos pediram aos pais para não o adquirirem. O motivo estaria no comportamento agressivo do garoto Max, na forma como ele projeta sua raiva nas criaturas, que o proclamam o rei dos monstros, e na ambiguidade desses seres. Para reforçar, os pais sequer são ilustrados.O fato é que Sendak prioriza o universo infantil e retrata a criança tal qual ela é: desordeira, por vezes egoísta e solitária, capaz de realizar pequenas maldades inocentes. E de uma forma tão sutil quanto transmite essas noções, ele nos mostra como uma repreensão severa pode vir acompanhada do amor quentinho e sincero da mãe.
Sobre a obra: Onde Vivem Os Monstros foi lançado em 1963 nos EUA e, no ano seguinte, recebeu a Caldecott Medal, prêmio da American Library Association para o melhor livro infantil ilustrado. Mais tarde, em 1980, Sendak criou nomes para os monstros quando o livro foi adaptado para uma ópera. A aventura de Max é a primeira de uma trilogia, seguida por In The Night Kitchen (1970) e Outside Over There (1981). Juntas, as obras revelam como as crianças lidam com diferentes sentimentos. No Brasil, apenas o primeiro livro foi lançado, no ano passado, pela editora Cosac Naify.





























