sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Para ler: Onde Vivem Os Monstros

Dentro de todos nós 

Antes de virar filme pelas lentes de Spike Jonze (Quero Ser John Malkovich), Onde Vivem Os Monstros era “apenas” um livro infantil ilustrado. Na verdade, um clássico, sucesso de vendas nos EUA, cercado de elogios pela crítica e rejeitado por educadores. Em poucas palavras, que mal preenchem uma lauda, o autor Maurice Sendak nos conta sobre Max, um filho travesso que é mandado para a cama sem jantar. Fechado em seu quarto, o garoto cria um mundo imaginário, povoado por monstros.

Se fosse apenas uma história de ninar, o conto de Sendak já seria perfeito: repleto de lacunas, o texto fornece as circunstâncias, o protagonista, começo, meio e fim. O resto depende da imaginação dos pais e do sono das crianças. Mas não se deixe enganar. Por trás dessa obra pueril, a escrita de Sendak reserva conceitos e uma precisão estilística captados apenas por um público maduro.

O autor escreve prosa como se fosse poesia. No lugar de versos, ele usa as páginas para (des)construir o texto, criar pausas e expressar sentimentos, afinal são dez longos períodos fragmentados entre 37 páginas e 18 painéis. A cadência das palavras reforça seus significados, como no trecho que descreve a algazarra das criaturas durante a chegada do menino ao seu mundo:

(...) eles rugiram seus terríveis rugidos e arreganharam seus terríveis dentes e reviraram seus terríveis olhos e mostraram suas terríveis garras até que Max disse 'quietos!' (...)”.

O ritmo, criado pela métrica e pelo casamento das sílabas tônicas entre uma frase e outra, é praticamente homogêneo, até ser interrompido pela ação do protagonista. A última frase, mais curta, alterna um fonema tônico com outro átono, pontuando uma rispidez ágil e cortante, com uma sonoridade própria. Cada palavra do livro é pensada e medida, segundo os valores que transmite e o espaço que ocupa.

As belas ilustrações em estilo naif acompanham a narrativa exercendo uma função descritiva, característica ausente no texto. São elas que revelam a peculiaridade dos monstros imaginados pelo autor. Um deles lembra um leão, outro se parece com um galo, um terceiro tem pés de pato e assim por diante. São reinterpretações que a criança faz de criaturas conhecidas, porém estranhas ao seu universo.

Tanta destreza ao contar uma história tão curta não foi suficiente para afastar os detratores. Ainda na década de 1960, quando foi escrito, o livro foi excluído de diversas bibliotecas norte-americanas e psicólogos pediram aos pais para não o adquirirem. O motivo estaria no comportamento agressivo do garoto Max, na forma como ele projeta sua raiva nas criaturas, que o proclamam o rei dos monstros, e na ambiguidade desses seres. Para reforçar, os pais sequer são ilustrados.

O fato é que Sendak prioriza o universo infantil e retrata a criança tal qual ela é: desordeira, por vezes egoísta e solitária, capaz de realizar pequenas maldades inocentes. E de uma forma tão sutil quanto transmite essas noções, ele nos mostra como uma repreensão severa pode vir acompanhada do amor quentinho e sincero da mãe. 

Sobre a obra: Onde Vivem Os Monstros foi lançado em 1963 nos EUA e, no ano seguinte, recebeu a Caldecott Medal, prêmio da American Library Association para o melhor livro infantil ilustrado. Mais tarde, em 1980, Sendak criou nomes para os monstros quando o livro foi adaptado para uma ópera. A aventura de Max é a primeira de uma trilogia, seguida por In The Night Kitchen (1970) e Outside Over There (1981). Juntas, as obras revelam como as crianças lidam com diferentes sentimentos. No Brasil, apenas o primeiro livro foi lançado, no ano passado, pela editora Cosac Naify.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Para esperar: o que está demorando

Infelizmente, filmes não-americanos ou de estúdios pequenos precisam trabalhar dobrado para conseguir alguém interessado em distribuí-los no mercado internacional. No mínimo, precisam carregar um prêmio no cartaz. Depois das listas de grandes e pequenos lançamentos esperados para 2010, confira abaixo alguns bons filmes que, até agora, estrearam em pouquíssimas cidades brasileiras, foram exibidos somente em festivais, ou nem isso. Algumas produções sequer têm distribuidora no Brasil. Ou você corre atrás, ou continua esperando que elas surjam num cinema – ou locadora – perto de você. Nos textos, links para os trailers.


Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock)

É o mais recente filme de Ang Lee, baseado no livro autobiográfico de Elliot Tiber. Talvez você não conheça esse cara, mas sabe o que ele fez: sem a sua ajuda, o festival Woodstock não teria acontecido. Indicada à Palma de Ouro no último Festival de Cannes, essa comédia musical tem paticipações de Emile Hirsch, Paul Dano, Jeffrey Dean Morgan e Liev Schreiber. No Brasil, o filme foi lançado em dezembro do ano passado, mas apenas em São Paulo.


Goodbye... Solo

O cineasta Ramin Bahrani escreve e dirige este drama sobre a amizade criada entre um velho e um taxista, que deve levá-lo, no dia marcado, a uma viagem com motivo desconhecido. O filme de 2008 recebeu o Prêmio da Crítica no Festival de Veneza daquele ano e estreou no Brasil, mas apenas em São Paulo, em setembro de 2009.


In The Loop

O roteirista, diretor e produtor da televisão inglesa Armando Iannucci estreia no cinema, co-escrevendo e dirigindo esta sátira política sobre a guerra. O filme venceu o British Independent Film Award como Melhor Roteiro. São destaques no elenco James Gandolfini, da série Família Soprano, e Anna Chlumsky, a garotinha Vada de Meu Primeiro Amor. Nos EUA, seu lançamento em julho de 2009 foi limitado a poucas salas. Ainda não há distribuidora no Brasil.


Julia

Terceira versão, desta vez livre, do filme Gloria. A segunda e mais famosa, de 1999, foi dirigida por Sidney Lumet e protagonizada por Sharon Stone. Agora, é Tilda Swinton quem vive a mulher problemática que rapta um garoto para conseguir dinheiro. Dirigido pelo francês Erick Zonca, o filme de 2008 foi indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlim e exibido no Festival do Rio do mesmo ano, tendo estreado em poucas salas nos EUA em maio de 2009.


Lake Tahoe

Segundo filme do mexicano Fernando Eimbcke, sobre um adolescente que se envolve com acontecimentos estranhos em sua pequena cidade. A produção de 2008 foi indicada ao Urso de Ouro e recebeu o Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Berlim daquele ano. Mesmo assim, ainda não foi lançado no circuito norte-americano e só foi exibido aqui no país durante o Festival Internacional do Rio em 2009.


Me and Orson Welles

Richard Linklater filma a adaptação do livro de Robert Kaplow. Zac Efron faz um adolescente que é escalado para um papel na peça Júlio César, de Orson Welles e que marcou a abertura do Mercury Theatre. Claire Danes, Ben Chaplin e o desconhecido Christian McKay, na pele de Welles, completam o elenco principal. O filme, que passa por festivais desde 2008, teve lançamento limitado nos EUA em novembro de 2009. Ainda não há distribuidora no Brasil.


O Dia da Transa (Humpday)

Bromance é como são conhecidos os filmes sobre amizade entre homens. Geralmente entre dois, mas pode haver mais. Humpday explora os limites do gênero: dois amigos heterossexuais decidem fazer um filme pornô. Atuando juntos. É a versão bromance de Pagando Bem, Que Mal Tem?. O filme da diretora e roteirista Lynn Shelton levou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Sundance 2009, pelo “espírito de independência”. Teve lançamento limitado nos EUA em julho de 2009 e foi exibido no Festival Internacional do Rio no mesmo ano.


O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr Fox)

Depois das duas versões de A Fantástica Fábrica de Chocolate e a animação de James e O Pêssego Gigante, outra obra do escritor Road Dahl chega às telas. O diretor Wes Anderson (Viagem a Darjeeling) usa o stop-motion para dar vida a Fantastic Mr Fox, livro que no Brasil recebeu o título Rapozas e Fazendeiros. O filme, que concorre ao Globo de Ouro de Melhor Animação, conta com as vozes de George Clooney, Meryl Streep, Jason Schwartzman, Bill Murray, Michael Gambon, Willem Dafoe e Owen Wilson. Estreou somente em São Paulo e Rio de Janeiro em dezembro de 2009.


Revanche

O filme austríaco de 2008, escrito e dirigido por Götz Spielmann, concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009. Antes, foi premiado três vezes no Festival de Berlim. Nele, uma prostituta decide realizar um roubo e fugir com outro funcionário de seu cafetão, mas as coisas, claro, dão errado. Exibido no Festival Internacional de São Paulo ainda em 2008, a produção estreou em apenas duas cidades norte-americanas em 2009.


Sugar

Os cineastas Anna Boden e Ryan Fleck unem os temas da imigração e superação esportiva neste drama sobre um jovem dominicano jogador de beisebol nos EUA. Concorreu ao Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance em 2008 e na categoria Melhor Elenco na edição 2009 do Gotham Awards, a premiação do cinema indie norte-americano. Infelizmente, com baixo desempenho nas bilheterias estadunidenses, ainda não há distribuidora no Brasil.


The Song of Sparrows / Avaze Gonjeshk-ha

No Festival de Berlim de 2008, este filme concorreu ao Urso de Ouro e o ator Mohammad Amir Naji recebeu o Urso de Prata por sua atuação. O diretor iraniano Majid Majidi mostra um homem dividido entre a vida no campo e as promessas da cidade grande. A produção foi exibida no Festival Internacional de São Paulo ainda em 2008 e lançada em poucas salas nos EUA durante 2009. O DVD chega por lá em fevereiro.


You Won't Miss Me

O último Gotham Awards, voltado ao cinema independente dos EUA, chamou a atenção para esta pequena produção. You Won’t Miss Me foi eleito o melhor filme, dentre aqueles que ainda não possuem distribuidora. Dirigido e co-escrito pelo novaiorquino Ry Russo-Young, narra a história de uma jovem desajustada, recém-saída de um hospital psiquiátrico. Agora, é torcer para que o destaque no Gotham seja suficiente para alguém se interessar em distribuir o filme.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Para esperar: pequenos lançamentos

2010 pode ter começado, mas o ano de 2009 não acabou para o cinema. Pelo menos, não para os filmes independentes que estrearam ano passado nos EUA, mas ainda não apareceram no Brasil, com exceção de exibições únicas em festivais. Depois dos grandes lançamentos, confira abaixo uma lista de produções de pequenos estúdios norteamericanos e de outros países que ainda precisam dar as caras por aqui. E para não dizer que sempre vemos tudo com atraso, a lista ainda inclui dois filmes inéditos no mercado internacional. As descrições têm links para os trailers. 


A Todo Volume (It Might Get Loud)

Os músicos The Edge, do U2, Jimmy Page, co-fundador do Led Zeppelin, e Jack White, do White Stripes, falam sobre sua maior paixão e instrumento de trabalho: a guitarra. Novo documentário de Davis Guggenheim, que dirigiu o ex-presidenciável Al Gore em Uma Verdade Inconveniente. Estreia no Brasil: 15 de janeiro. 


Preciosa (Precious)

Pelo trailer, é a versão feminina de Em Busca da Felicidade e o azarão do próximo Globo de Ouro. Preciosa concorre na categoria Melhor Filme – Drama, esmagado entre Avatar, Amor sem Escalas, Guerra ao Terror e Bastardos Inglórios. As atrizes Gabourey Sidibe e Mo'Nique não estão em melhor situação: concorrem a Melhor Atriz – Drama e Melhor Atriz Coadjuvante com nomes do naipe de Emily Blunt, Sandra Bullock, Helen Mirren, Penélope Cruz e Julianne Moore. Será que vai? Baseado no romance Push, o único da poetisa perfomática Sapphire. O livro causou polêmica nos EUA pelos temas de abuso e incesto. Estreia no Brasil: 29 de janeiro. 


Entre Irmãos (Brothers)

A assinatura do diretor Jim Sheridan, responsável por Em Nome do Pai e Terra dos Sonhos, é suficiente para merecer atenção. Por esse filme, Tobey Maguire, o eterno Peter Parker, concorre no próximo Globo de Ouro com George Clooney, Morgan Freeman, Jeff Bridges e Colin Firth ao prêmio de Melhor Ator – Drama. Ao lado de Maguire, encabeçam o elenco Natalie Portman e Jake Gyllenhaal. Estreia no Brasil: 12 de fevereiro. 


The Men Who Stare at Goats 

Depois de co-escrever Boa Noite e Boa Sorte com George Clooney, o desconhecido Grant Heslov tornou-se diretor da adaptação mais improvável do ano. O livro do jornalista Jon Ronson fala de uma divisão secreta do exército norte-americano que, após o 11 de setembro, dedicou-se ao desenvolvimento de poderes paranormais em seus soldados. O pior: é tudo verdade. O título em português, numa tradução literal, é Homens que Encaram Cabras (descubra o porquê no trailer). Com Ewan McGregor, Jeff Bridges, Kevin Spacey e, claro, Clooney, sócio de Heslov em sua produtora. Estreia no Brasil: 12 de fevereiro. 


Distante Nós Vamos (Away We Go) 

Novo filme do diretor Sam Mendes. Depois de três adaptações consecutivas (Estrada para Perdição, Soldado Anônimo e Foi Apenas Um Sonho), o cineasta investe em um roteiro original, sobre um casal “grávido” em busca de uma nova casa. O filme foi exibido nos festivais do Rio e São Paulo em 2009 e sai direto em DVD no Brasil no dia 15 de fevereiro deste ano. 


35 Doses de Rum (35 Shots of Rum / 35 Rhums)

A francesa Claire Denis (Desejo e Obsessão) filma um relacionamento entre pai e filha que mais se parece com o de um casal. Os dois cuidam um do outro, mas a chegada de um belo rapaz abala o laço entre os dois. O filme de 2008 estreou no último mês de setembro nos EUA e foi exibido no Festival Internacional do Rio em 2009. Estreia no Brasil: 19 de fevereiro. 


Sedução (An Education)

O escritor Nick Hornby, autor dos romances Um Grande Garoto e Alta Fidelidade, ambos adaptados para o cinema, assina o roteiro desta produção. A dinamarquesa Lone Scherfig dirige a história de uma jovem que precisa escolher entre os estudos e a promessa de uma nova vida. No elenco, Emma Thompson, Alfred Molina, Peter Sarsgaard e a pouco conhecida Carey Mulligan, que concorre ao Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama. Estreia no Brasil: 19 de fevereiro. 


Um Homem Sério (A Serious Man)

Desde que ganharam o Oscar com Onde Os Fracos Não Têm Vez, os irmãos Coen estão lançando um novo filme por ano. Ainda bem. De volta ao humor negro de Fargo, desta vez eles contam a história de um professor em vias de ser abandonado pela esposa, por causa do cunhado que divide a casa com eles. Perdido, o marido se aconselha com três rabinos. Hein? Estreia no Brasil: 19 de fevereiro. 


Insolação 

Daniela Thomas, diretora de Linha de Passe, une-se a Felipe Hirsch, diretor de teatro, para realizar Insolação. O filme foi bem comentado pela crítica presente no último Festival de Veneza, onde foi exibido na mostra Horizontes, dedicada a inovações na linguagem cinematográfica. O ator Paulo José faz a ligação entre vários personagens, jovens e velhos, que descobrem o amor numa cidade vazia. Estreia no Brasil: 19 de março. 


A Fita Branca (The White Ribbon / Das Weisse Band)

Grande vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2009, o mais recente filme do diretor alemão Michael Haneke (Violência Gratuita) agora concorre ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Todo filmado em preto e branco, o roteiro retrata uma comunidade alemã antes da Primeira Guerra Mundial. Estreia no Brasil: sem previsão. 


Agora 

A bela e talentosa Rachel Weisz estrela este épico do diretor chileno Alejandro Amenábar (Os Outros). Em Alexandria, no Egito governado pelo Império Romano, a atriz vive uma filósofa que defende o conhecimento do mundo antigo frente à ascensão do cristianismo. O filme foi exibido no Festival de Cannes 2009, em maio, e lançado na Espanha em outubro do mesmo ano. Estreia no Brasil: sem previsão. 


Amreeka 

Eleito o melhor filme dentre os exibidos nas mostras A Semana da Crítica e Quinzena de Realizadores, no último Festival de Cannes. Também foi indicado a Melhor Filme no Gotham Awards, voltado ao cinema indie norte-americano, e ao Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance. O drama escrito e dirigido por Cherien Dabis narra as desventuras de uma imigrante árabe e seu filho adolescente em uma pequena cidade dos EUA. Foi exibido nos festivais do Rio e São Paulo em 2009 e nem entrou no circuito norte-americano. Estreia no Brasil: sem previsão. 


A Prophet / Un Prophète 

Dirigido e co-escrito pelo francês Jacques Audiard, o filme conta como um jovem árabe se torna chefe da máfia dentro de uma prisão francesa. Conquistou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2009 e, apesar de ter perdido a Palma de Ouro para A Fita Branca, sobrepujou o concorrente dentro dos EUA, onde foi eleito Melhor Filme Estrangeiro pelo National Board of Review. Agora, os dois disputam o mesmo título no Globo de Ouro. A produção tem lançamento limitado na terra do Tio Sam, marcado para fevereiro de 2010. Estreia no Brasil: sem previsão. 


A Single Man 

Colin Firth contracena com Matthew Goode e a excelente Julianne Moore, vivendo um professor gay que perde seu parceiro após 16 anos de relacionamento. Primeiro filme do estilista Tom Ford (ex-Gucci), que também trabalhou no roteiro e na produção. A trama foi adaptada do romance de Christopher Isherwood (Cabaret). Depois de conquistar o prêmio de Melhor Ator no último Festival de Veneza, Firth agora concorre ao Globo de Ouro ao lado de Moore, que disputa na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. O trailer é o mais estiloso da lista. Estreia no Brasil: sem previsão. 


Coração Louco (Crazy Heart)

Você já viu essa história antes. Troque o protagonista Jeff Bridges por Mickey Rourke e você terá uma versão country de O Lutador. Bridges vive um cantor alcoólatra que se apoia em uma mulher (Maggie Gyllenhaal) para recomeçar a vida. E até foi indicado ao Globo de Ouro, na categoria Melhor Ator – Drama. Pra completar, dizem que é a atuação da vida de Rourke, quer dizer, Bridges. O elenco tem Robert Duvall e uma participação de Colin Farrell. O diretor estreante Scott Cooper escreveu o roteiro, baseado no livro de Thomas Cobb. Estreia no Brasil: sem previsão. 


Kick-ass 

Mark Millar conquistou os fãs de super-heróis nos quadrinhos e, aos poucos, faz o mesmo no cinema. Não sem criar polêmica. Primeiro, vendeu o argumento de O Procurado a um estúdio antes de concluir a história original. Depois, divulgou na mídia suas ideias para um incerto filme de Superman, na esperança da Warner contratá-lo. E mais recentemente, associou-se ao diretor Matthew Vaughn para adaptar suas HQ’s para a tela grande. O primeiro filme a ficar pronto é Kick-ass, sobre um adolescente normal, leitor de gibis, que decide combater o crime com uma máscara e um bastão de beisebol. Muitos estúdios recusaram bancar a distribuição por causa da violência, até o sarcástico trailer ser ovacionado num festival de quadrinhos. Estreia no Brasil: sem previsão. 


Lunar (Moon)

Um thriller dramático de ficção científica. Sam Rockwell vive um astronauta que permaneceu isolado no espaço durante 3 anos. Pouco antes de voltar para a Terra, o homem tem um estranho encontro na órbita da Lua. Kevin Spacey dubla o robô da nave, GERTY. O filme marcou a estreia do filho de David Bowie, Duncan Jones, na direção. Teve lançamento limitado nos EUA em junho de 2009 e no Brasil saiu direto em DVD no dia 6 de janeiro. 


O Mensageiro (The Messenger)

Ben Foster é um soldado norte-americano com a missão de informar as jovens esposas sobre a morte de seus maridos em combate. Até se apaixonar por uma delas, vivida por Jena Malone. Woody Harrelson concorre ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante por sua atuação. Esse drama de guerra do estreante Oren Moverman está no Top 10 2009 do National Board of Review e foi exibido aqui durante o Festival Internacional do Rio. Estreia no Brasil: sem previsão. 


O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus (The Imaginarium of Doctor Parnassus)

O ex-Monty Python Terry Gilliam não dá sorte. Vários de seus projetos para o cinema foram parar na gaveta devido a acidentes com atores, falta de recursos e até inundações. Seu último filme quase seguiu pelo mesmo caminho com a morte de Heath Ledger. Para prestar uma homenagem ao ator e concluir a produção, três outros nomes se juntaram ao elenco revezando-se no personagem: Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell. Estreia no Brasil: sem previsão. 


The Last Station 

Drama biográfico sobre Leo Tolstoi, autor de clássicos como Guerra e Paz e Anna Karenina. O roteiro acompanha os últimos anos da vida do escritor russo, baseado no livro de Jay Parini. Michael Hoffman, de Sonhos de Uma Noite de Verão, dirige Christopher Plummer, Helen Mirren, James McAvoy e Paul Giamatti. Por suas atuações, Plummer e Mirren concorrem ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Atriz - Drama. Estreia no Brasil: sem previsão. 


Vencer (Vincere)

O filme, indicado à Palma de Ouro no último Festival de Cannes, é um drama histórico do diretor italiano Marco Bellocchio sobre Benito Mussolini, seu grande amor, Ida Dalser, e o fruto desse romance, Benito Albino. O ator Filippo Timi vive pai e filho, enquanto Ida é interpretada por Giovanna Mezzogiorno, de O Amor nos Tempos do Cólera. O filme estreou na Itália em maio de 2009, foi exibido nos festivais do Rio e São Paulo no ano passado e tem lançamento limitado nos EUA marcado para março de 2010. Estreia no Brasil: sem previsão.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Para esperar: grandes lançamentos

Antes de tudo, esta é uma lista particular. Não pretende reunir todos, nem os principais lançamentos dos grandes estúdios de Hollywood em 2010, mas sim os projetos que mais me interessaram nos últimos meses e cujas notícas venho acompanhando para não perder as estreias. Os quatro primeiros já foram lançados nos EUA ano passado e três deles são fortes candidatos nas premiações deste ano. Confira os motivos que me fizeram incluí-los à minha lista de espera e, quando quiser, você pode assistir aos trailers clicando nos links espalhados pelo texto. 


Onde Vivem Os Monstros (Where The Wild Things Are)

O diretor Spike Jonze (Quero Ser John Malkovich) volta às telas adaptando o livro infantil de Maurice Sendak, publicado em 1963. Um clássico nos EUA em arte naif, a obra chegou ao Brasil no ano passado, precedendo o lançamento do filme. O tom divertido e melancólico do trailer encanta, embalado pela excelente trilha sonora criada pela cantora Karen O, vocalista da banda de indie rock Yeah Yeah Yeahs. Estreia no Brasil: 15 de janeiro. 


Amor Sem Escalas (Up In The Air)

A cada novo filme, o diretor Jason Reitman ganha maior reconhecimento. O primeiro, Obrigado por Fumar, teve duas indicações ao Globo de Ouro. Juno aumentou esse número para três e ainda marcou presença no Oscar em quatro das principais categorias. Agora, com uma adaptação do livro de Walter Kirn em que a comédia e o drama se confundem ainda mais, Reitman lidera a lista do Globo de Ouro e é uma das principais apostas para o Oscar. Estreia no Brasil: 22 de janeiro. 


Invictus 

Novo filme de Clint Eastwood, com Morgan Freeman interpretando Nelson Mandela. Precisa dizer mais? O roteiro baseia-se no livro The Human Factor: Nelson Mandela and The Game that Changed the World, de John Carlin, que narra como o ex-presidente sul-africano, após o fim do Apartheid e sua saída da prisão, uniu negros e brancos através do esporte. E ainda tem Matt Damon como capitão do time de rúgbi. Estreia no Brasil: 29 de janeiro. 


Nine 

Novo filme do diretor de Chicago, Rob Marshall, que mais uma vez adapta um musical da Broadway, que por sua vez adapta um musical italiano baseado em 8 e ½, de Fellini. É a segunda produção mais indicada ao Globo de Ouro deste ano, depois de Amor sem Escalas. Mas o que mais atrai a atenção é a reunião de elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren e a cantora Fergie. Estreia no Brasil: 29 de janeiro. 


Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones)

Depois da trilogia O Senhor dos Anéis e do remake de King Kong, Peter Jackson volta às origens. A trama mistura drama, suspense e fantasia, lembrando Almas Gêmeas, filme de Jackson pré-Terra Média, que revelou o talento de Kate Winslet para o mundo. O roteiro da nova produção adapta o livro homônimo de Alice Sebold, que por aqui recebeu o título Uma Vida Interrompida: Memórias de Um Anjo Assassinado. O trailer, que parece tratar de um romance adolescente, tem uma reviravolta interessante para quem não conhece a história. Estreia no Brasil: 5 de fevereiro. 


O Lobisomem (The Wolfman)

Depois de tantas versões modernas, a Universal Pictures finalmente resolveu refilmar a história de 1941 do seu clássico monstro. Andrew Kevin Walker (Seven) e David Self (Estrada para Perdição) assinam o roteiro. Joe Johnston (O Céu de Outubro) dirige Benicio Del Toro, Anthony Hopkins, Emily Blunt e Hugo Weaving. Com origem na mitologia grega, o Lobisomem tornou-se uma das maiores lendas de terror do cinema, ao lado de Drácula e de Frankenstein, refilmados em 1992 (Francis Ford Coppola) e 1994 (Kenneth Branagh). Estreia no Brasil: 12 de fevereiro. 


Ilha do Medo (Shutter Island)

Primeiro longa de ficção dirigido por Martin Scorsese após o oscarizado Os Infiltrados, de 2007. Shutter Island é a terceira adaptação para o cinema de um livro de Dennis Lehane (Sobre Meninos e Lobos) e marca a quarta colaboração entre Scorsese e o ator Leonardo DiCaprio, que encabeça o elenco formado por Mark Ruffalo, Michelle Williams, Max von Sydow, Jackie Earle Haley e Bem Kingsley. Os temas e a ambientação prestam homenagem à Alfred Hitchcock. Estreia no Brasil: 5 de março. 


Fúria de Titãs (Clash of The Titans)

O filme original, de 1981, foi uma revolução dos efeitos especiais, com monstros gerados em stop motion, hoje risíveis. Agora, Louis Leterrier (Hulk) assina o remake que, com a tecnologia 3D, promete deixar o embate entre heróis, criaturas e deuses mitológicos ainda mais emocionante. Baseado na lenda grega de Perseu, a nova produção conta com Liam Neeson (Zeus), Ralph Fiennes (Hades), Danny Huston (Poseidon) e o onipresente Sam Worthington, de Avatar, na pele do protagonista. Estreia no Brasil: 2 de abril. 


Alice no País das Maravilhas (Alice In Wondeland)

Tim Burton apresenta sua versão bizarra para o clássico de Lewis Carrol, em mais uma parceria com sua esposa, a atriz Helena Bonham Carter, e o ator Johnny Depp. Apesar do título, o filme não adapta o livro original, nem sua continuação, Alice Através do Espelho. Na história totalmente nova, a protagonista retorna ao País das Maravilhas, mas sem lembrar que já esteve lá. Estreia no Brasil: 16 de abril. 


Homem de Ferro 2 (Iron Man 2)

Após o primeiro Homem de Ferro e o reinício da franquia do Hulk, a Marvel Comics prossegue com a expansão do seu universo de heróis no cinema. E contrariando as regras, continua a dar aos seus personagens os rostos de celebridades cinematográficas. Robert Downey Jr e Gwyneth Paltrow estão de volta, ao lado de Scarlett Johansson (Viúva Negra), Don Cheadle (Máquina de Combate) e Samuel L. Jackson (Nick Fury), além de Sam Rockwell e Mickey Rourke como os vilões da vez. Estreia no Brasil: 30 de abril. 


Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo (Prince of Persia: Sands of Time)

O produtor Jerry Bruckheimer (Piratas do Caribe) se une ao diretor Mike Newell (Harry Potter e o Cálice de Fogo) para trazer ao cinema o famoso game homônimo e transformá-lo em uma nova e mágica franquia. Em imagens e dinheiro. O trailer promete. O protagonista ganha o rosto de Jake Gyllenhaal, que atua ao lado de Alfred Molina e Ben Kingsley. Estreia no Brasil: 4 de junho. 


A Origem (Inception)

Entre O Cavaleiro das Trevas e o próximo filme de Batman, o diretor Christopher Nolan decidiu realizar um projeto fora da franquia do homem-morcego. O resultado é a ficção científica Inception. Cercado de mistérios, pouco se sabe sobre o roteiro, a não ser que se trata de um “crime dentro da mente”. O elenco reúne Leonardo DiCaprio, Michael Caine, Marion Cotillard, Ellen Page, Cillian Murphy e Joseph Gordon-Levitt. Estreia no Brasil: 6 de agosto. 


Esquadrão Classe A (The A-Team)

A famosa série de TV dos anos 1980 está de volta. Aos cinemas. O criador dos personagens originais, Stephen J Cannell, é o produtor do filme, para manter as características originais do programa e evitar o pastiche de As Panteras. Repaginado, o grupo de veteranos de guerra fugitivos é deslocado do Vietnã para o Iraque. No elenco, Liam Neeson (Coronel Hannibal), Bradley Cooper (Cara-de-pau), Sharlto Copley (Murdock) e o lutador Quiton ‘Ranpage’ Jackson (B.A.). A direção é de Joe Carnahan, que em 2002 foi elogiado pela crítica com o thriller policial independente Narc. Estreia no Brasil: sem previsão.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Para assistir: 500 Dias com Ela

O fim do verão

2009 foi embora e deixou uma ótima lembrança. Faltando um dia para o réveillon, fui conferir a melhor comédia romântica do ano que passou. 500 Dias com Ela é o mais recente filme-sensação do cinema independente norte-americano. Entrou em circuito nos EUA somente em julho e no Brasil em novembro, mas passou o primeiro semestre inteiro e parte do segundo fazendo carreira em festivais pelo mundo afora.

O filme reúne o humor inteligente e a sonoridade indie de Juno com a visão crua sobre o amor de Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembrança. Apesar de mais leve e menos inventivo do que este, 500 Dias reserva um final mais corajoso. Com toques de sagacidade, o filme já agrada o espectador antes mesmo de começar. O letreiro avisa: “Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com acontecimentos e pessoas reais é mera coincidência. A não ser por você, Jenny Beckman. Sua #@%#%!”.

Mais de acordo com os tempos modernos, com mulheres decididas e homens fragilizados, inseguros de seu papel na sociedade, o texto nos apresenta Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt, de G. I. Joe: A Origem de Cobra) e Summer Finn (Zooey Deschanel, de Fim dos Tempos). Ele acredita em relacionamentos duradouros e espera encontrar sua alma-gêmea, enquanto ela só quer sexo e amizade.

A inversão de papéis por si só não é novidade. A diferença está na forma como o roteiro a trabalha, rendendo vários momentos inesquecíveis, que se equilibram entre o cômico e o melancólico. Um dos melhores apresenta uma sucessão de carícias, risos e brincadeiras do casal sobre a cama, enquanto Summer declama em off o indescritível prazer de estar só.

O desenvolvimento não-linear da trama mantém o interesse do público até o fim. Ao contrário de outras produções do tipo, somos apresentados aos dois personagens a partir da cena em que ambos rompem sua relação. Daí em diante, o tempo vai e volta, intercalando a primeira metade dos 500 dias, quando o casal está apaixonado, e a metade final, quando ambos procuram deixar de conviver com o outro na memória.

Apesar dos jovens protagonistas, a produção deixa claro que busca um público mais maduro. Vide a bem-humorada citação ao filme A Primeira Noite de Um Homem, a homenagem a Curtindo A Vida Adoidado e a antológica cena em que Summer canta ao telefone a abertura de uma famosa série oitentista. Há ainda referências rasteiras ao escritor J. D. Salinger (autor de O Apanhador nos Campos de Centeio e de um conto que batizou a atriz Deschanel), a pintores famosos e álbuns de rock.

500 Dias com Ela rompe com os apelos e fórmulas do gênero, causando sorrisos sinceros e provocando reflexões à saída da sessão, o que menos se espera de uma comédia água-com-açúcar. No lugar de vender uma vida romanceada, ele mostra que o ser humano é volúvel e o amor pode mudar tão facilmente – ou não – quanto as estações do ano.

Realização: o resultado do filme surpreende pelo currículo dos envolvidos. Dirigido pelo estreante Marc Webb, com experiência em videoclipes, tem roteiro da dupla Scott Neustadter e Michael H. Weber, precedido apenas por A Pantera Cor-de-rosa 2.

Premiações: recebeu duas indicações ao Globo de Ouro 2010, nas categorias Melhor Filme – Comédia/Musical e Melhor Ator em Comédia/Musical, para Joseph Gordon-Levitt.

Trilha sonora: merece ser conferida. Ela reúne o melhor do cenário alternativo de 30 anos atrás e atual, como Regina Spektor, The Smiths, Feist, The Clash, Spoon, Belle & Sebastian e outros.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Para ouvir: Christmas In The Heart

Natal Old Fashioned

O Natal passou, todo mundo já trocou os presentes, mas o espírito natalino tem que ser preservado o ano inteiro. Ainda no ritmo das festas de final de ano, dê uma conferida no último álbum de Bob Dylan, Christmas In The Heart. Sim, você leu direito. Um dos ícones musicais da contracultura dos anos 1960 chega aos 68 anos de idade entoando canções natalinas para toda a família.

Calma, não é tão estranho quanto parece. Apesar de algumas de suas composições serem libelos contra a participação dos EUA na Guerra do Vietnã ou a favor dos direitos civis, Dylan contribuiu para o movimento reacionário de quarenta anos atrás sem questionar valores sociais mais arraigados, como o casamento e a família. Ao contrário, sua discografia vez ou outra deixou transparecer suas crenças ora judaicas, ora cristãs.

Dentro desse contexto, não deveria ser surpresa um projeto natalino de uma das maiores lendas do pop-rock-jazz-folk-country-gospel. Ainda assim, soa inesperado. O CD foi lançado em outubro deste ano, mas cerca de uma semana antes suas faixas já haviam caído na Internet. Todas são hinos e canções clássicas de Natal, executadas tal e qual, sem reinterpretações ou experimentalismos. Mesmo assim, o clipe de Must Be Santa ficou com a cara debochada de Dylan.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Para assistir: Avatar

Novo Mundo 

A estreia de Avatar gerou muitas perguntas. A primeira delas: quem é o rei da ficção científica? George Lucas ou James Cameron? Se ambos os diretores desenvolveram efeitos especiais que impressionaram o público em épocas distintas, eles se diferenciam pelo conjunto da obra e no conteúdo de seus trabalhos mais recentes.

Lucas, há três décadas, criou a franquia Star Wars e até hoje lucra com ela. Cameron, apesar de ter escrito e dirigido histórias de sucesso e rentáveis, nunca idealizou algo tão poderoso quanto seu contemporâneo. No entanto, mostrou-se mais prolífico: ele nos trouxe os dois primeiros filmes da série O Exterminador do Futuro, o segundo Alien, O Segredo do Abismo e, agora, retorna aos cinemas, após um hiato de 12 anos, com Avatar.

Apesar de fortes na indústria, todos esses títulos reunidos dificilmente superam a força de Guerras nas Estrelas no imaginário da geração que cresceu com seus três primeiros episódios - hoje, os três finais. Mas não é impossível que este último conquiste a preferência do público para o qual o membro mais famoso da família Skywalker é Anakin, e não Luke.

Enquanto a trilogia original de Lucas enfatizava seus arquétipos e repaginava as aventuras de capa-e-espada, suas novas produções aprofundaram-se numa trama cada vez mais política. E o duelo entre as duas formas de governo, Império e República, nunca foi utilizado para fazer paralelo com o mundo real. Cameron, ao contrário, mistura bases mitológicas com, pelo menos, três assuntos atuais: consciência ambiental, clonagem e realidade virtual. O resultado é que os temas e a expansão fizeram de Star Wars uma sexalogia predominantemente para meninos e já iniciados. Avatar é para todos.

A segunda pergunta é fruto da alardeada tecnologia revolucionária por trás do novo filme: seu conteúdo faz jus à embalagem? Tal qual a resposta da primeira questão, esta também não é simples. Avatar é uma enorme colcha de clichês e referências. Cada novo elemento inserido à trama, ao invés de gerar apreensão, faz o espectador antever o que virá a seguir. De forma fácil e sem surpresas, Cameron entrega tudo exatamente como o público quer: o herói inesperado que vive um drama pessoal, o pária que necessita conquistar a confiança de uma sociedade, o messias que vem desafiar a liderança política, um amor impossível e uma guerra entre o idealismo e a ganância.

As bases para a composição da história também são várias, desde o mito de Pocahontas, uma clássica lenda romântica que remete à formação dos Estados Unidos, até outros filmes de ficção científica, guerra e fantasia. Cameron chega a fazer autorreferências ao reproduzir uma fala de Titanic, seu trabalho que precedeu Avatar, e ao reciclar uma armadura de Aliens - O Resgate, que também aparece em outras produções do gênero, como Matrix Revolutions e Distrito 9. Para completar, o filme tem colhido acusações de plágio pela Internet, envolvendo sua premissa, artes conceituais e enquadramentos. As obras que teriam sido copiadas incluem a animação Delgo, uma série literária sci-fi dos anos 1950 e uma história em quadrinhos obscura da Marvel Comics.

O fato é que as inspirações do diretor e roteirista, um nerd convicto, são tantas e tão claras que é impossível sair do cinema pensando ter visto algo novo - a menos, é claro, que você não possua referência alguma. A história do filme não tem absolutamente nada de original. Se há um mérito para Cameron, dramaturgicamente falando, é o de reunir tudo isso e criar algo coerente e convincente. E aí está a mágica de Avatar que me impede de encerrar este texto por aqui.

O conteúdo não é original, mas é verdadeiro. Entre tantos vilões e mocinhos estereotipados, os atores conseguem transmitir sentimentos reais, mesmo aqueles sob a pele em CGI dos ET's. Entre tanta previsibilidade, os acontecimentos não insultam a inteligência do espectador. Nem as falas mais óbvias pecam por prolixidade ou apelação. Ao invés disso, são enxutas e têm o timing certo. Vide o onipresente discurso motivacional que serve de ponte para a última parte. Até a canção-tema, um pop meloso de fazer inveja a Celine Dion, é reservada para os créditos finais. Enfim, Cameron não inova, mas as críticas a Titanic o ensinaram a usar o clichê a seu favor.

Tudo isso garante que o público mais exigente não se sinta ofendido e aproveite o espetáculo visual, o grande trunfo do filme. Desconsiderada toda a tecnologia 3D, Avatar ainda é bonito de se ver. O planeta Pandora está repleto das cores quentes e fluorescentes das raves, que misturam natureza, psicodelia e esoterismo, em contraste com o monocromatismo e a iluminação fria do interior das naves terráqueas. Os enquadramentos, a todo momento, valorizam a sensação de profundidade e, numa sala com projeção 3D, geram uma experiência contemplativa única. E aí vai uma dica: chegue cedo e não sente muito próximo, para não desviar os olhos da imagem enquanto lê a legenda, nem muito distante, a ponto de prejudicar a imersão.

Ao final da projeção, o que fica no espectador é a sensação de grandiosidade. O que nos leva a uma terceira pergunta: quem é o rei do cinema de entretenimento? Seja qual for a sua resposta para as duas questões anteriores, neste quesito Cameron chegou ao topo.

Elenco: Sam Worthington (O Exterminador do Futuro 4: A Salvação), Zoe Saldana (Star Trek), Sigourney Weaver (Wall-E), Stephen Lang (Inimigos Públicos), Michelle Rodriguez (Velozes e Furiosos 4) e Giovanni Ribisi (Inimigos Públicos). Tanto Worthington quanto Saldana vêm de várias participações em filmes de baixo orçamento, a maioria desconhecidos, com pequenos papéis em grandes produções, como A Guerra de Hart (Worthington) e Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (Saldana), e foram catapultados a protagonistas de blockbusters durante 2009.

Realização: a intenção de Cameron era filmar Avatar logo após Titanic, mas o orçamento de U$ 400 milhões exigido na época pelos efeitos especiais inviabilizaram sua produção. Foi o resultado com a personagem Gollum, da trilogia O Senhor dos Anéis, que convenceu o diretor de que o filme poderia ser finalmente realizado. Seu orçamento final é estimado em U$ 230 milhões - o mais caro da história.

Premiações: Avatar recebeu quatro indicações ao Globo de Ouro 2010. São elas: Melhor Diretor, Melhor Filme - Drama, Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original para I See You, interpretada pela nova diva pop Leona Lewis.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Para assistir: A Festa da Menina Morta

Dor na contradição

Dor. Essa é a palavra profética pronunciada ao final de A Festa da Menina Morta. Profecia retroativa, porque doloroso é o caminho até ela. O respeitado ator Matheus Nachtergaele (Baixio das Bestas) estreia no roteiro e direção de um filme, revelando um olhar cru e cruel, áspero e seco, de difícil deglutição.

O que mais incomoda na história é a proximidade entre céu e inferno, espiritualidade e selvageria. No centro do misticismo católico-profano de uma comunidade à beira do Amazonas está uma figura que, ao mesmo tempo em que abençoa e faz milagres, também carrega características homoeróticas e é vítima/cúmplice de incesto.

Se nós, moradores das grandes cidades brasileiras, reagimos com estranheza diante da realidade de um outro brasil, tão distante, seria hipocrisia culpar o público europeu que chegou a abandonar a exibição no meio do Festival de Cannes, onde A Festa da Menina Morta estreou em 2008 durante a mostra Um Certo Olhar.

O filme é composto por longos fragmentos arrastados, fechados em si mesmos, porém conectados em sentido e pelo enredo. Simbolizando o primitivismo da população, há vários inserts entre as cenas, todos com animais encarcerados, domesticados, camuflados ou abatidos.

As primeiras informações sobre o que se desenrola vão sendo mostradas aos poucos, de maneira sutil, até que as dúvidas e negações do público sejam escancaradas na tela. Nachtergaele joga com os valores e a permissão da plateia. Ao longo da trama, o diretor fornece apenas parcas tintas, o necessário para que, no clímax – um longo e intenso diálogo durante o qual ele reflete sua experiência teatral nos atores –, cada espectador complete seu próprio quadro, ora mais cético, ora mais místico.

As atuações recriam tanto a naturalidade da população ribeirinha quanto o gestual exagerado do teatro. No primeiro caso, revelam as bases reais para a concepção da história, inspirada numa celebração religiosa que o diretor testemunhou no interior da Paraíba, quando ainda atuava em O Auto da Compadecida. No segundo, transpõem para a tela uma arte que, muitas vezes, requer um talento mediúnico para fazer os outros acreditarem naquilo que não está lá.

Além de dirigir, Nachtergaele co-escreveu A Festa da Menina Morta com Hilton Lacerda, mesmo roteirista dos igualmente vicerais Amarelo Manga e Baixio das Bestas, nos quais o diretor atuou. Nos papéis principais estão Jackson Antunes (2 Filhos de Francisco), Juliano Cazarré (Nome Próprio), Daniel de Oliveira (Cazuza – O Tempo Não Pára) e Dira Paes (Baixio das Bestas), contando ainda com as participações de Paulo José (Saneamento Básico) e Cássia Kiss (Chega de Saudade).

Apesar do filme só ter entrado em cartaz no circuito nacional em junho deste ano, ele vem rodando vários festivais no Brasil e no mundo desde 2008. No ano passado, em Gramado, conquistou o Kikito de Ouro nas categorias Melhor Ator (Daniel de Oliveira), Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora. E apesar de não ter levado o troféu de Melhor Filme, recebeu o Prêmio Especial do Júri, o Prêmio da Crítica e foi eleito o Melhor Filme pelo Júri Pupular. Obrigatório.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Para assistir I: Distrito 9

Duas produções atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros se apropriam de estilos distintos aos seus gêneros para contar suas histórias. Distrito 9, do estreante Neill Blomkamp, e Bastardos Inglórios, do veterano Quentin Tarantino, criam algo novo mesclando fórmulas conhecidas. O primeiro usa o formato de documentário para narrar uma ficção científica. O segundo emprega a linguagem do western para desenvolver um filme de guerra.

Os aliens somos nós

O primeiro mérito da ficção científica Distrito 9 é extrair um resultado original de um dos temas mais desgastados do imaginário popular. As invasões alienígenas já foram assunto em diversas mídias. E continuam sendo. No início de novembro, a série de TV oitentista V - A Batalha Final ganhou remake pela rede estadunidense ABC. Nos quadrinhos, a minissérie Invasão Secreta, da Marvel Comics, chega ao final também este mês no Brasil. E uma das animações infantis a serem lançadas neste final de ano trata justamente do tema: Planeta 51.

Distrito 9 mostra mais uma "invasão", porém sem o sentido lato da palavra. Os extraterrestres estão aqui porque não conseguem voltar ao seu planeta de origem. Moribundos e famintos, são acolhidos de maneira crítica: acomodados em um gueto, abusados civil e moralmente e separados do resto da população.

Tal como escritores do naipe de H. G. Wells (Guerra dos Mundos), Philip K. Dick (Minority Report) e Isaac Asimov (Eu, Robô), o diretor sul-africano não trata a ficção científica como mera fantasia. Mas, no lugar de filosofar sobra a natureza humana, Blomkamp faz uma denúncia social. Usando as memórias do Apartheid, regime político sob o qual viveu durante a infância, ele retrata a realidade da segregação racial em um país multiétnico.

A linguagem documental, diametralmente oposta ao gênero, confere-lhe um caráter absurdamente realista. São mostradas imagens de arquivo e entrevistas com antropólogos, sociólogos e outros profissionais que procuram explicar o impacto da presença dos alienígenas, anos após sua chegada, na população de Johanesburgo, maior cidade sul-africana. No entanto, Blomkamp não se apega ao formato no decorrer de toda a produção.

Aos poucos, o documentário vai dando lugar a uma trama filmada no estilo reality show, inaugurado por A Bruxa de Blair e, até agora, restrito ao gênero de terror. Mais adiante, a câmera-personagem é deixada de lado e passamos a acompanhar uma ficção normal. Apesar do estilo híbrido, a transição é feita com cuidado e não gera estranheza. Mas o desenvolvimento da história reserva alguns pontos negativos.

Certos acontecimentos-chave, essenciais para o andamento do roteiro, são baseados em coincidências ou fatos pouco prováveis. A repetição de situações assim passa a ideia de uma resolução pobre. Outro porém é o texto, que muitas vezes sublinha o óbvio ou o que deveria ser deixado nas entrelinhas, como o fato da nave-mãe não estar sobrevoando Nova York ou outra cidade mundialmente importante. Nesse caso, soa como um autoelogio pela quebra de paradigma. São pequenos detalhes que arranham uma proposta inovadora.

Antes de começar a escrever e dirigir, Neill Blomkamp trabalhava nos efeitos visuais de séries de TV como Stargate e Smallville. Com sua experiência, criou os ETs do curta Alive in Joburg (2005), que serviu de premissa para Distrito 9. Outro de seus curtas, Crossing the Line (2008), foi co-dirigido por Peter Jackson (O Senhor dos Anéis), que decidiu financiar seu longa de estreia. O elenco desconhecido conta com Vanessa Haywood (Hey Boy), Jason Cope (Juízo Final), Nathalie Boltt (Juízo Final) e os estreantes David James e Sharlto Copley, que vive o protagonista. Copley, que não pretendia ser ator, também participou de Alive in Joburg e hoje faz parte do elenco principal da adaptação para o cinema da antiga série de TV Esquadrão Classe A.

Para assistir II: Bastardos Inglórios

Arma Ideológica

Bastardos Inglórios é uma engraçada, romântica, dramática e ultraviolenta homenagem de Tarantino ao cinema ianque e alemão. A guerra deflagrada por Hitler era tão ideológica quanto militar. E a sétima arte, devido à sua influência na época, foi um importante campo de batalha entre os dois polos do conflito, o Estados Unidos e a Alemanha.

Referências a produções cinematográficas dos dois países atravessam a tela com a mesma intensidade dos tiros trocados entre nazistas e aliados. Até mesmo as personagens recebem nomes e sobrenomes de cineastas e atores. E acredite: mesmo não entendendo nenhuma indicação, você vai se divertir do mesmo jeito. Até mesmo uma menção aparentemente aleatória ao filme King Kong esconde uma alusão a um dos filmes preferidos pelo Führer.

A trama se passa durante a ocupação alemã na França, enquanto um grupo paramilitar norte-americano tenta se infiltrar nas fileiras inimigas sediadas em Paris para acabar com a guerra. Coincidência ou não, a escolha do palco para ambientar um filme com tantas homenagens à história do cinema alemão é irônica. A capital francesa é reconhecida por ter abrigado aquela que seria a primeira exibição cinematográfica do mundo, feita pelos irmãos Lumière. No entanto, o marco inicial da sétima arte foi estabelecido em detrimento de algumas projeções anteriores, como a dos irmãos Skladanowski, na Alemanha. O filme daria voz a uma rixa histórica nesse meio.

Mas a maior ironia, esta sim claramente intencional, Tarantino reservou para o desfecho: um plano para assassinar os maiores líderes do Terceiro Reich na estreia de um filme. Durante a execução, o material exibido - uma propaganda do exército nazista - é substituído por uma película com as características do expressionismo alemão, arte considerada decadente pela cinematografia de Goebbels e a ideologia inquisidora de Hitler, que destruiu muitas de suas obras. Além de ser tema recorrente na filmografia de Tarantino, desta vez a vingança está presente até nas entrelinhas.

Homenageando o lado adversário, a estética de Bastardos Inglórios se distancia do gênero de guerra e aproxima-se do maior representante do cinema norte-americano: o western. De um lado, os aristocráticos alemães fazem o papel dos colonizadores. Do outro, os estadunidenses caipiras representam os selvagens. Em jogo, as terras do oeste europeu. As principais características do gênero que ficou conhecido no Brasil como faroeste estão lá: escalpos, tiroteios em locais fechados e confrontos em forma de duelo.

Bastardos, claro, reserva referências a dois dos maiores realizadores dos filmes de cowboy. O compositor Enio Morricone está presente com oito músicas. O diretor Sergio Leone também. Dividido em capítulos, o filme teve sua primeira parte entitulada Once Upon a Time in Nazi-Occupied France, uma referência ao clássico de Leone Once Upon a Time in the West, reconhecido como um dos melhores westerns de todos os tempos.

O título, na verdade, seria usado na própria produção, antes de ser alterado para Bastardos Inglórios, inspirado no filme italiano The Inglorious Bastards (Quel Maledetto Treno Blindato). Se a primeira opção tivesse sido mantida, a última fala da trama teria feito ainda mais sentido para Tarantino: "acho que fiz a minha obra-prima".

O elenco americano-franco-germânico de Bastardos Inglórios cria um desfile de sotaques na tela: Brad Pitt (O Curioso Caso de Benjamin Button), Mélanie Laurent (Paris), o ator austríaco e revelação internacional Christoph Waltz (Berlin Blues), Eli Roth (À Prova de Morte),  Michael Fassbender (300), Diane Kruger (Tróia), Daniel Brühl (Adeus, Lênin!), Til Schwiger (Rei Arthur), Gedeon Burkhard (The Last Train), Jacky Ido (A Massai Branca), B. J. Novak (Reine sobre Mim), Omar Doom (À Prova de Morte) e August Diehl (Buddenbrooks). Roth, que também é diretor (O Albergue), foi responsável pelas cenas do filme nazista exibido na última sequência, O Orgulho da Nação. Entre as figuras históricas importantes estão Joseph Goebbels, vivido por Sylvester Groth (O Leitor), e Adolf Hitler, interpretado por Martin Wuttke (Silent Resident). O filme ainda conta com aparições de Mike Myers (O Guru do Amor) e Julie Dreyfus (Kill Bill), a narração de Samuel L. Jackson (The Spirit) e a voz ao telefone de Harvey Keitel (Cães de Aluguel).