Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Para assistir: O Visitante

Lar estrangeiro

Sean Penn foi o grande vencedor do Oscar de Melhor Ator neste ano, por “Milk: A Voz da Igualdade”. Mesmo desaparecendo sob a pele do ativista gay Harvey Milk, sua atuação vitoriosa foi ameaçada pelo desempenho de Mickey Rourke em “O Lutador” e pela presença de Brad Pitt no caçador de prêmios “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Nessa seleção de melhores, que também incluiu Frank Langela por “Frost/Nixon”, o único nome improvável era o de Richard Jenkins (Queime Depois de Ler).

Com formação no teatro, participação em séries de TV e presença tanto em filmes comerciais quanto de cineastas reconhecidos, como Lawrence Kasdan, Woody Allen, Sydney Pollack e os irmãos Coen, Jenkins sempre foi “o homem que não estava lá”, “o ilustre desconhecido” que todo mundo lembra, mas ninguém sabe de onde. Querido em Hollywood por sua personalidade agradável e com 58 longas em 24 anos de carreira, o ator representou no Oscar o papel de “azarão”. Em “O Visitante”, Jenkins convence, mas certamente não sobressai entre os concorrentes. Entretanto sua primeira indicação chamou a atenção para um ótimo pequeno filme que, do contrário, poderia se perder.

Jenkins vive um professor que retorna a New York após um longo período ausente, a trabalho. Para sua surpresa, encontra dois imigrantes morando em seu apartamento. Sua primeira reação é expulsá-los, mas logo se vê dividindo o lugar com eles. A história inteira é uma grande metáfora sobre os principais problemas da globalização: as diferenças socioeconômicas entre as nações e o movimento migratório em direção aos países mais abastados.

Como se sabe, as desigualdades ao redor do planeta, herdadas após séculos de colonialismo, são o maior entrave para o tão almejado desenvolvimento global paritário. A opinião expressa pela produção estadunidense é de que, para remediar essa situação, os países do chamado Terceiro Mundo necessitam da solidariedade e boa vontade do Primeiro Mundo. Ao acolher um sírio e uma senegalesa embaixo de seu teto, o professor concretiza esse ideal.

É um discurso perigoso, pois poucos diferenciam a solidariedade da caridade e do paternalismo, estes sim uma afronta à soberania e identidade dos países. Aqui, a palavra é utilizada no sentido de compreensão e cooperação. Para se fazer entender, o roteiro insere o protagonista nos costumes de seus hóspedes, e não o contrário. Inicialmente através da música, a personagem principal vai se enquadrando no dia-a-dia dos povos subdesenvolvidos e assimilando seus hábitos - diferente da mulher que, em certa cena, adquire artesanato africano na rua e demonstra total desconhecimento de sua origem.

Essa inversão de papéis entre o proprietário e seus visitantes também serve para expressar o sentimento norte-americano diante de um país cada vez mais construído por imigrantes. Estes não apenas cozinham e servem à mesa, mas tomam as decisões dentro do apartamento. São eles quem levam o professor para conhecer os locais que gostam de frequentar na cidade. Entre eles, a Estátua da Liberdade e a Ellis Island, porta de entrada dos imigrantes europeus no pós-guerra. O norte-americano é um estranho, um visitante em seu próprio país – algo que a última cena vem confirmar.

A New York captada pela lente da câmera também é menos cinzenta e mais calorosa em sua multiplicidade étnica. Durante o dia, os imigrantes ocupam as ruas com sua arte e diferentes línguas. Ao entardecer, vemos à contra-luz um vulto feminino longilíneo, repleto de adereços exóticos, avançando por uma avenida ao som do batuque africano. À noite, a percussão pode ser ouvida em um bar de jazz, para uma plateia composta por negros, árabes e latinos. O protagonista observa a tudo isso com um misto de estranheza e encanto, como que abrindo os olhos pela primeira vez. Pena que sua reação, numa crítica mordaz à alienação estadunidense, venha tarde demais.

“O Visitante” foi o segundo filme escrito e dirigido pelo ator Thomas McCarthy (A Conquista da Honra), que estreou atrás do roteiro e das câmeras em “O Agente da Estação”. Além de Jenkins, o elenco conta com Haaz Sleiman (AmericanEast), Hiam Abbass (Munique), Richard Kind (Os Produtores) e a estreante Danai Jekesai Gurira. A produção foi exibida pela primeira vez no Festival de Toronto de 2007, mas somente entrou no circuito das salas de cinema em abril de 2008. No Brasil, estreou em março de 2009. Você confere o trailer aqui.

Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

Para assistir: melhores do trimestre

Quem quer ser um deles?

Durante o primeiro trimestre do ano, vários grandes lançamentos disputaram o ingresso dos cinéfilos, principalmente devido à concorrência dos principais estúdios pelos dois maiores prêmios do cinema ianque, o Globo de Ouro e o Oscar. Com o ritmo da corrida à sala escura normalizado, selecionei os três filmes que mais me chamaram a atenção dentro desse período para comentar rapidamente. Vale lembrar que algumas produções importantes, como Frost/Nixon, Milk e Dúvida, não estrearam nos cinemas do estado de janeiro a março e, por isso, não foram considerados.

Náufragos do casamento

Hollywood parece ter encontrado uma nova fonte de idéias para seus filmes: a lista da revista Time com as 100 melhores obras literárias do século XX. No espaço de um ano, três adaptações dessa relação ganharam as telas: “Desejo e Reparação”, no ano passado, “Watchmen”, o mais recente, e o romance escrito originalmente por Richard Yates, “Foi Apenas Um Sonho”. O diretor Sam Mendes (Soldado Anônimo) volta ao subúrbio norte-americano, já visitado em “Beleza Americana”, para desconstruir mais uma vez o núcleo familiar burguês. A diferença é que, nesta nova incursão, Mendes não faz concessões.

Se a melancolia do seu filme de estréia era apenas um dos ingredientes, ao lado de humor ácido, clima de mistério e paixão adolescente, aqui ela dita o ritmo e o tom da história do início ao fim, tornando-a menos palatável ao grande público. Não à toa, ao contrário da produção de 1999, a mensagem sem esperança de “Foi Apenas Um Sonho” saiu completamente ignorada do Oscar. O filme sequer foi indicado às principais categorias, ao contrário do Globo de Ouro, não tão conservador.

Apesar de funcionar por completo, o grande destaque da película são as escolhas do roteiro e as sutilezas do diretor. A narrativa exclui qualquer elipse temporal, criando surpresas onde normalmente não haveria. Da cena em que o jovem casal se conhece, Mendes parte direto para outra situação, que culmina em briga. Ao longo da discussão percebemos que anos se passaram desde o primeiro encontro. Ainda assim, não fazemos ideia do quanto. E isso nos leva a um novo imprevisto, inteligentemente revelado junto com uma festa de aniversário surpresa.

Crucial à mensagem foi a escolha dos atores para viver os protagonistas com o casamento em crise: Kate Winslet, esposa de Mendes na vida real, e Leonardo DiCaprio, ambos ainda vivos na lembrança do público como o casal de “Titanic”. Mesmo não se passando em um idílico transatlântico, a história reserva paralelos propositais com o épico romântico de James Cameron, como a cena de sexo no carro e o desfecho, deturpando radicalmente o significado de ambos e reclamando um espaço na história da cinematografia.

E como não mencionar o longo zoom out, próximo ao final, com a personagem de Winslet observando a vida pela janela, tendo o fruto de seu casamento derramado no tapete da sala impecável? É o filme inteiro resumido em uma cena. Se perdeu no cinema, fique com o trailer enquanto aguarda o DVD.

A adaptação de “Foi Apenas Um Sonho” é apenas o segundo trabalho do roteirista Justin Haythe (Refém de Uma Vida). Além do casal principal, seu elenco ainda conta com Michael Shannon (As Torres Gêmeas), Kathy Bates (Titanic), Richard Easton (Encontrando Forrester), David Harbour (007 – Quantum of Solace), Kathryn Hahn (Quase Irmãos) e as crianças Ty e Ryan Simpkins (Força Policial), irmãos na vida real.

O filme foi indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante, para Michael Shannon, Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino. Recebeu maior evidência no Globo de Ouro, ao qual concorreu por Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor e Melhor Ator, para DiCaprio, e venceu por Melhor Atriz, para Winslet. Importante lembrar que a moça também levou o prêmio na categoria Melhor Atriz Coadjuvante, por “O Leitor” (de Stephen Daldry), que também lhe valeu o Oscar de Melhor Atriz.

Bela fábula sem piedade

Sem estrear a tempo de concorrer nas premiações mais recentes, mas desde já uma promessa para o próximo ano, “Coraline e O Mundo Secreto” é um exemplo raro de adaptação. Resenhas por toda parte elogiam o trabalho do diretor e roteirista Henry Selick (O Estranho Mundo de Jack) ao criar novas personagens, arredondar ainda mais a trama e inserir detalhes no ambiente não citados no livro de Neil Gaiman (Sandman) e que contribuíram para o clima sombrio do filme. Mas parece que ninguém afirma o óbvio: a produção de Selick é melhor que o livro.

Isso não é pouco. Na época de seu lançamento nas livrarias, “Coraline” foi exaltado pela crítica como o primeiro conto de fadas contemporâneo, o novo “Alice no País das Maravilhas”. As similaridades com o texto de Lewis Carroll são evidentes: o gato, o espelho e até o túnel para um universo paralelo. A diferença é que esse mundo é igual ao nosso, exceto pelos detalhes mágicos e uma vida aparentemente perfeita. As referências à cultura britânica não páram por aí. O inglês Gaiman inclui no texto um trecho de Hamlet, de Shakespeare, e faz uma citação ao poema “La Belle Dame sans Merci” (A Bela Dama Sem Piedade), que o poeta romântico John Keats escreveu em 1819.

Tudo isso foi reaproveitado por Selick. Além de dar forma à riqueza do texto original, o diretor-roteirista cria seu próprio tesouro. “Coraline e O Mundo Secreto” é o mais longo filme feito em stop-motion até hoje, com 1h40min de duração, e o primeiro com essa técnica a ser filmado inteiramente em 3D. Mesmo em uma sala de cinema não preparada para transmitir a sensação de profundidade proporcionada, as formas e cores saídas da imaginação de Selick impressionam.

Seja a beleza exagerada do jardim do outro mundo, seja a aridez mórbida do terreno em torno da casa real da protagonista, é impossível ficar impassível às imagens. Nas crianças, o filme causa medo legítimo. Nos adultos, provoca certo desconforto. Quem não sentiu um frio na espinha ao ver de perto a ponta de uma agulha costurando os botões nos olhos de uma boneca de aspecto infantil? Ou mesmo sua boca? Mas essas sugestões visuais violentas devem passar despercebidas pelos infantes.

O que pode afastar as crianças é a incompreensão de algumas cenas, já que o roteiro não segue a cartilha Disney de adaptação. Com o mesmo efeito, Coraline não é uma protagonista em quem o público infantil se veja refletido. Ela é introspectiva e extremamente aborrecida, daí seu carisma certeiro entre os adultos. “Coraline”, portanto, é uma animação mais voltada a uma platéia madura, que se identifica com o tom de fábula e o gênero infanto-juvenil. Confira o trailer.

“Coraline e O Mundo Secreto” é o primeiro roteiro para longa metragem de Henry Selick, que até então só havia assumido a cadeira de diretor e escrito dois curtas. A dublagem norte-americana conta com as vozes de Dakota Fanning (Guerra dos Mundos), Teri Hatcher (O Resgate de Um Campeão), Jennifer Saunders (Shrek 2), Dawn French (As Crônicas de Nárnia: O Leão, A Feiticeira e O Guarda-roupas), Keith David (Liga da Justiça: A Nova Fronteira), John Hodgman (Uma Mãe para Meu Bebê), Robert Bailey Jr (Fim dos Tempos) e Ian McShane (Scoop: O Grande Furo). O livro, lançado em 2002, foi premiado com o Hugo Award em 2003 e traz ilustrações de Dave McKean (Asilo Arkham), frequente colaborador de Gaiman.

Neil Gaiman é um dos autores que fizeram parte da conhecida invasão britânica no mercado norte-americano de quadrinhos durante os anos 1980. Aclamado pela crítica literária por seu trabalho na série “Sandman”, unindo cultura pop, mitologia e religião, posteriormente migrou de fato para a literatura, onde escreveu “Deuses Americanos” e “Os Filhos de Anansi”, entre outros títulos. Antes de “Coraline”, foi adaptado pela primeira vez para o cinema no filme “Stardust” e estreou como roteirista, ao lado de Roger Avary, em “A Lenda de Beowulf”.

Vida a nocaute

Simples, sensível e verdadeiro. Depois dos complexos “Pi” e “Fonte da Vida” e do angustiante “Réquiem para Um Sonho”, o diretor Darren Aronofsky retorna com seu trabalho mais linear e nos surpreende com o filme do ano. Uma produção independente de orçamento baixíssimo (míseros U$ 7 milhões), “O Lutador” é uma fábulas às avessas em que um aposentado dos ringues busca redenção no diálogo com a filha e nos braços de uma striper.

Aronofsky filma com câmera na mão, apegando-se à realidade para conduzir o público à emoção. É dessa realidade que o lutador do título, interpretado por Mickey Rourke (Sin City: A Cidade do Pecado), fugiu durante toda a vida. Agora, às portas da morte, procura reatar os poucos laços que um dia possuiu com ela. Pode soar piegas, melodramático ou clichê, mas o filme nunca cai nessas armadilhas tão comuns ao gênero. E por isso sai fortalecido.

A incapacidade do protagonista de se relacionar com as pessoas e encarar os fracassos da própria vida o leva a viver mais intensamente do lado de dentro das cordas, onde os resultados são previsíveis. Seu medo de viver é materializado no dia-a-dia fake das lutas arranjadas, na dupla identidade de sua paixão e na prevalência da figura de colant sobre o homem por baixo dela. Em certa cena, ele brinca ao lado de um garoto com um videogame. A personagem do jogo é ele mesmo. Como Sam Mendes fez em “Foi Apenas Um Sonho”, resumindo a trama em uma cena, “O Lutador” é sintetizado numa frase: “o único lugar em que eu me machuco é lá fora”.

Rourke aceitou protagonizar o filme, aparecendo em todas as cenas, sem ganhar nada. O mesmo fez Bruce Springsteen, ao compor a triste canção homônima, “The Wrestler”: “Have you ever seen a one-legged dog making its way down the street? / If you’ve ever seen a one-legged dog then you’ve seen me”. Ambos saíram premiados como Melhor Ator e Melhor Canção no último Globo de Ouro. E se o desempenho do ator passou batido pelo Oscar e a produção sequer foi indicada a Melhor Filme, o Festival de Veneza a consagrou com seu prêmio máximo, o Leão de Ouro. Fique com o trailer e acrescente à sua lista de filmes para alugar.

“O Lutador” conta com o roteiro do estreante Robert D. Siegel, que anteriormente havia apenas escrito “The Onion Movie”, uma sátira jornalística lançada direto em DVD. Ao lado de Rourke no elenco, estão Marisa Tomei (Antes Que O Diabo Saiba Que Você Está Morto), que concorreu ao Oscar de Melhor Atriz, Evan Rachel Wood (Across The Universe) e Mark Margolis, que participou de todos os quatro filmes de Aronofsky.

Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Para ler: O Curioso Caso de Benjamin Button

Fidelidade literária

Francis Scott Fitzgerald é considerado um dos maiores escritores americanos do século XX. Esse título ele conquistou por meio de uma obra pertinente, que reflete o ambiente social de uma época importante e que ele próprio definiu como “a era do jazz”: os anos 1920, entre o fim da 1ª Guerra Mundial e a Grande Depressão. O que o grande público ignorava é que o autor flertou com a fantasia em algumas histórias de menor projeção, durante décadas relegadas à sombra de romances como “Este Lado do Paraíso”, “Belos e Condenados” e “O Grande Gatsby”. A recente adaptação para o cinema de uma dessas histórias, “O Curioso Caso de Benjamin Button”, iniciou um resgate de várias tramas curtas e obscurecidas que, mesmo com premissas fantásticas, não deixam de retratar o espírito daquele tempo.

Para o bem ou para o mal, o que assistimos na sala escura passa bem longe do original de Fitzgerald. Excetuando-se o fato que desencadeia toda a trama, um homem nascer velho e morrer bebê, nada resta das palavras do autor: personagens, enredo, contexto ou significados. Felizmente, na esteira do filme, outros profissionais se mexeram para trazer o texto-base de volta à luz. No Brasil, a editora José Olympio não só reeditou o livro “Seis Contos da Era do Jazz e Outras Histórias”, publicado no país pela primeira vez em 1987 e do qual “O Curioso Caso” faz parte, como também lançou uma nova compilação com o título “O Curioso Caso de Benjamin Button e Outras Histórias da Era do Jazz”, bem mais atraente para o espectador que sai do cinema e vai direto à livraria.

Mas o lançamento mais peculiar é uma outra adaptação, para os quadrinhos. Publicada nos EUA no ano passado pela Quirk Publishing e rapidamente impressa aqui pela Ediouro, a versão ilustrada de “O Curioso Caso de Benjamin Button” conserva a pena de Fitzgerald: são a narração e os diálogos imaginados pelo escritor que lemos de um quadro a outro. A adaptação foi realizada pelo casal Nunzio DeFilippis e Christina Weir (Skinwalker), com experiência em roteiros para a arte seqüencial e a televisão. Do texto original, os dois cortaram apenas os trechos que ficariam melhor expressos pelas belas pinturas de Kevin Cornell, ilustrador e designer americano. Cornell utiliza aquarela com tons pastéis direto sobre seus desenhos em grafite, captando com perfeição a época em que o conto foi escrito.

A primeira característica curiosa que vem à mente do leitor que inicia a leitura da HQ é a pouca atenção dada pelo autor à mãe de Benjamin. Após as três primeiras páginas, em que recebe tanta importância quanto o marido, a senhora Button só volta a ser mencionada em um quadro de um capítulo mais adiante. É o pai, Roger Button, quem busca o filho na maternidade e se responsabiliza por sua criação, impondo regras e comprando-lhe roupas e brinquedos. A ausência da mãe, ou mesmo o seu silêncio quando citada, é uma consequência direta do papel que a mulher exercia na sociedade daquele tempo.

A história se desenrola durante sete décadas, de 1860 ao fim dos anos 1920. Nesse período, atravessamos dois conflitos importantes para os EUA: a Guerra Hispano-americana e a Primeira Guerra Mundial. A anterior recebe maior destaque, pois é quando Benjamin se torna um herói. Foi nela que os Estados Unidos enfrentaram a Espanha e retiraram da nação europeia o domínio sobre Cuba, Porto Rico, Guam e as Filipinas. O autor utiliza o orgulho nacional militar para dar um revés na vida do protagonista e em sua situação perante a sociedade. É nessa época que a personagem também atinge sucesso nos negócios da família, acompanhando a aurora do capitalismo.

Em comparação com a tela grande, a premissa fantástica de Fitzgerald é ainda mais surreal nas páginas do escritor. Aqui, Benjamin não nasce como um bebê envelhecido, mas como um homem adulto de 70 anos. Além de ostentar barba e bigode, em suas primeiras horas de vida ele já é capaz de falar e andar. Também não demonstra qualquer interesse pelas atividades infantis e prefere passar horas conversando com seu avô. O desenvolvimento mental acompanha o desenvolvimento físico da personagem. Se no conto essa realidade parece inimaginável, tanto que recebeu severas críticas quando foi publicado pela primeira vez, em 1922, sua visualização nos quadrinhos é um delicioso absurdo.

“O Curioso Caso” inicia como uma comédia assumida e somente aos poucos vai ganhando contornos mais dramáticos, à medida que Benjamin consegue se inserir na sociedade e nossa apreensão aumenta por sermos os únicos, além do narrador, a compreender sua condição singular e seu destino fatídico. E aí há uma diferença crucial entre filme e conto. Enquanto o primeiro desenvolve uma narrativa em tom de fábula, com personagens pitorescos que atravessam a vida do protagonista como se este vivesse em um mundo mágico, um país das maravilhas, o segundo insere Benjamin numa trajetória de vida que poderia pertencer a qualquer um. Ele nasce e cresce na mesma cidade, serve ao exército, cursa a faculdade, ainda que na ordem contrária, casa-se, tem filhos e vive com sua família até o fim da vida.

Dessa forma, DeFilippis e Weir preservam o significado da história contada por Fitzgerald. O autor imaginou a trama após ler uma biografia sobre outro escritor estadunidense, Mark Twain, na qual o criador de Tom Sawyer lamenta que a infância, melhor parte da vida de um homem, ocorra no início, deixando a pior para o final. Enquanto Twain culpava Deus por sua escrita ao contrário do ideal, Fitzgerald comprou a proposta e mostrou que a alegria e a tristeza são próprios do início e do fim da vida, respectivamente, não importa como ou por onde ela comece ou termine. Se os primeiros capítulos de “O Curioso Caso” são divertidos, mostrando os desentendimentos e as tentativas de aproximação entre pai e filho, o final é trágico, com uma criança ignorada por seus familiares. Nossa vida não é justamente assim? Essa transição do gênero narrativo, do humor ao drama absolutos, não seria suportada no cinema de shoppings, mas a escrita de Fitzgerald, a adaptação de DeFilippis e Weir e as ilustrações de Cornell a conduzem com naturalidade.

De modo semelhante, o ideário cinematográfico de amor eterno e impossível vendido pela história na tela vai no sentido contrário do romance realista descrito no conto. Benjamin se casa aos 20 anos com uma jovem da mesma idade, mesmo aparentando ter 50. À medida que ela envelhece e ele perde suas rugas, o sentimento tem o mesmo destino da grande parte dos casamentos, o que reforça a identificação do leitor e a melancolia do final. A tragédia de Button é a mesma de todos nós.

Durante as primeiras semanas deste ano, “O Curioso Caso de Benjamin Button” em quadrinhos era a única forma que os leitores brasileiros tinham de conhecer o conto original. Quando a Ediouro o lançou nas livrarias, a antiga edição da José Olympio estava esgotada e a nova coletânea ainda não havia chegado às prateleiras. A curta história foi publicada pela primeira vez em 1922, numa edição da revista Collier's Weekly, e somente depois, no mesmo ano, foi incluída no livro “Tales of The Jazz Age”, que o Brasil só viria a conhecer em 1987. Você pode lê-la na íntegra, em inglês, no Google Books.

As obras autorais de Nunzio DeFillippis e Christina Weir nunca foram publicadas no país, mas os fãs brasileiros de quadrinhos já os conhecem por seus trabalhos nas duas principais editoras norte-americanas, a Marvel Comics e a DC Comics, nas quais escreveram os títulos “Novos X-Men: Academia X” e “Mulher Maravilha”. Já Kevin Cornell é um designer multimídia, cuja arte pode ser conferida no seu blog pessoal e faz toda a diferença entre a prosa corrida e o texto ilustrado. O estilo das pinturas e a expressividade nos rostos de suas personagens ajudam a apreciar ainda mais o conto. Na Internet, você pode conferir o primeiro capítulo da HQ e ainda visitar o site que a Ediouro preparou especialmente para a obra.

Sábado, 28 de Março de 2009

Para ouvir: Sou

Um por todos

Logo mais, à noite, Marcelo Camelo realizará seu primeiro show em Vitória – ES após o fim da banda Los Hermanos. A apresentação faz parte da turnê pelo Brasil do primeiro álbum solo do compositor, cantor e violonista carioca: “Sou”. O título do CD parece uma autoafirmação solitária do artista diante de sua atual fase. Mas também revela já na capa o tom intimista que conferiu ao seu trabalho de estreia.

Apesar do acompanhamento da banda de post-rock paulista Hurtmold, sempre vigorosa, a serenidade é a marca de “Téo e a Gaivota”, faixa que abre o álbum. Os instrumentos são executados de forma que lembre uma passagem informal de som e a dissonância entre eles lá pelo meio da canção evidencia o individualismo melancólico que percorre todo o trabalho. Até Camelo canta em um tom mais grave e baixo que o normal: “Toda dor repousa na vontade / todo amor encontra sempre a solidão”.

Mas a música quem vem recebendo maior destaque da mídia é “Janta”, um dueto de Camelo com a namorada e cantora-revelação de 2008 Mallu Magalhães. Enquanto um canta em português e o outro em inglês, reforçam a incomunicabilidade entre dois apaixonados: “Eu quis te convencer, mas chega de insistir / Caberá ao nosso amor o que há de vir / Pode ser a eternidade má / Caminho em frente pra sentir saudade”. A canção foi escolhida pela revista Rolling Stone como a melhor de 2008.

Ao mesmo tempo em que o artista abriu espaço para talentos em ascensão, também contou com convidados ilustres. Em duas faixas, a pianista erudita Clara Sverner constrói versões instrumentais para duas canções do CD, “Passeando” e “Saudade”. Nas versões originais, ouvimos apenas Camelo dedilhando seu violão, interrompido por sua voz sussurrante. As letras, claro, expressam a solidão do autor, quer existencial (“E lá vai Deus sem sequer saber de nós / saibamos pois / estamos sós”), quer romântica (“Caberia a quem dizer: / “Amor, eu vivo tão sozinho de saudade”).

Outra parceria é com o sanfoneiro Dominguinhos na faixa “Liberdade”: “É, Deus, parece que vai ser nós dois até o final / Eu vou ver o jogo se realizar de um lugar seguro”. Essa é uma das três melodias em que Camelo foi buscar inspiração no som regional do Nordeste brasileiro. As outras duas são a romântica “Menina Bordada” e a fatalista “Vida Doce”, que encerra o álbum com a participação de um coro masculino: “Vida que é doce levar avisa de lá que eu já sei / Todo balanço que dá neste navegar naveguei”.

O trabalho autoral de Camelo tem rendido várias comparações com outro cantor e compositor carioca, Chico Buarque, que também apresenta em algumas canções uma batida mais regional. Mas a proximidade entre os dois artistas pode ser melhor conferida em faixas como “Copacabana” e “Santa Chuva”. Na primeira, Camelo utiliza a riqueza dos metais e da percussão para compor uma rica e bela marchinha sobre o Carnaval carioca, no estilo de “A Banda”. Já na segunda, ele encarna uma mulher para cantar sua melancolia diante de um sentimento traído, como Buarque já fez diversas vezes. A música, inclusive, fora gravada por Maria Rita em seu primeiro CD.

Completando o álbum, há ainda a minimalista “Tudo Passa”, a delicada “Doce Solidão” e a encorpada “Mais Tarde”, que substitui o violão dedilhado pela guitarra. “Sou” foi gravado em novembro de 2007, mas seu lançamento só ocorreu no segundo semestre de 2008. 10 faixas foram lançadas primeiro na Internet, no final de agosto, através do Sonora, o site de música do portal Terra. O CD completo, com 14 faixas, chegou às lojas somente em setembro. A capa traz um poema do artista plástico Rodrigo Linhares.

Antes de iniciar sua carreira solo, Marcelo Camelo já compunha paralelamente ao seu trabalho na banda Los Hermanos. Suas canções eram interpretadas por cantoras nacionais, como Maria Rita, que incluiu quatro canções do autor no seu disco de estreia, fazendo seu nome despontar para fora do círculo de fãs do grupo. Los Hermanos se reuniram mais uma vez recentemente para abrir o primeiro show do Radiohead no Brasil. Dos seus quatro CD’s lançados em dez anos de vida, o segundo, “Bloco do Eu Sozinho” (2001), e o terceiro, “Ventura
(2003), foram incluídos pela Rolling Stone em sua lista dos 100 maiores discos da música brasileira. A carreira individual de Camelo já nasceu rodeada de promessas e expectativas.

Terça-feira, 24 de Março de 2009

Para assistir: Entre Os Muros da Escola

O mundo numa sala

Arthur. Boubacar. Carl. Cherif. Esmeralda. Khoumba. Louise. Qifei. Souleymane. Wei. Todos adolescentes entre 14 e 15 anos, alunos da 7ª série em uma escola na periferia de Paris. O diretor Laurent Cantet (Em Direção ao Sul) utiliza a puberdade, fase em que todos nós buscamos nossa própria identidade, para falar da identidade de seu país. Mas não da França que estamos acostumados a ver nos filmes, turística, romântica. Como os nomes na lista de chamada revelam, esta não é apenas a nação dos franceses, mas também dos imigrantes africanos, árabes e orientais.

Durante cinco séculos, a antiga potência europeia espalhou seu domínio por todos os demais continentes, formando um vasto império colonial. Algumas colônias se emanciparam e prosperaram, como a província de Quebec, a maior e segunda mais populosa do Canadá. Mas a maioria, localizada na África, sofre até hoje com as consequências do imperialismo francês, mesmo após sua independência. Os atuais países enfrentam intermináveis conflitos étnicos, frutos de uma divisão política que desrespeitou as origens das tribos locais.

No meio de um processo de emancipação semelhante, alunos de diferentes origens, a maior parte ex-colônias, precisam aprender mais do que as matérias escolares. A eles é ensinada a base de toda convivência com o estrangeiro: tolerância. É um aprendizado contínuo que não está nos livros, na lousa ou no discurso do professor, mas no dia-a-dia conflituoso desses adolescentes que, pelas obras de seus antepassados, são destinados a conviver em um único ambiente. Para suas famílias, a antiga metrópole é uma terra de oportunidades. E se o comportamento juvenil já é tribal por natureza, entre os muros desta escola ele atinge proporções planetárias.

Cantet constrói na sala de aula um microuniverso e utiliza as dinâmicas aluno-professor e aluno-aluno para representar as visões de mundo, os preconceitos e os conflitos étnicos e de classe dentro do seu país. Mesmo os professores, durante o ensino, deixam escapar laivos de intolerâncias ancestrais, resultados mais do hábito do que da intenção. Ao menos em dois momentos, vemos dois mestres perderem o controle, tanto das emoções quanto da razão, diante da dificuldade em controlar a turma.

Controle, aliás, é o que o Estado pretende exercer, mas não consegue, sobre seus imigrantes ilegais. Na escola, há vários filhos de pais que burlaram as leis para prolongar sua permanência no país. Nas cenas que se passam no pátio, durante o intervalo no meio das aulas, os jovens são filmados de um ponto de vista superior, como se fossem vigiados por uma autoridade maior. A quadra de concreto, destinada ao lazer, lembra o interior de uma prisão. Mas sabemos que os alunos, assim como os imigrantes, são numerosos e incontroláveis. E mesmo o mais amigável dos professores não consegue ser visto como um deles.



Se o filme se diferencia por mostrar um aspecto mais duro da França, a postura frustrada, perdida e, portanto, mais realista do corpo docente contraria a imagem de que os mestres sabem todas as respostas. Aqui, eles também são aprendizes. E aí reside o verdadeiro mérito da produção, que vai além da desenvoltura com que debate seu tema político. Afinal, representar situações macro em ambientes micro não é novidade. “Entre Os Muros da Escola” chama a atenção por duas características que, reunidas, formaram uma peça ímpar e encantadoramente humana: o naturalismo e a universalidade.

O diretor filma como um documentarista. Sua câmera registra o que se passa dentro da escola sem interferir com uma visão mais cinematográfica. Nada de ângulos inusitados ou enquadramentos que fujam do olhar simples de um observador. Com o mesmo efeito, cada situação em classe é narrada do início ao fim, sem edição que interfira no tempo real. Numa reunião de professores, por exemplo, acompanhamos a chegada dos membros do corpo docente um a um, esperamos que todos se sentem e acompanhamos as discussões à medida que os assuntos são introduzidos. Não há elipse temporal que abrevie o andamento normal da sequência.

Esse realismo acompanha o projeto desde sua essência. O filme é baseado no livro homônimo de François Bégaudeau, um professor de francês que resolveu registrar suas experiências em classe e que também ajudou a adaptar o roteiro. Durante as filmagens, o texto foi usado apenas como um guia para dar início às situações, que se desenvolveram naturalmente, na dinâmica criada com a turma. O professor que vemos na tela é vivido pelo próprio François, aqui rebatizado com o sobrenome Marin. Toda a turma também é composta por não-atores que, com exceção de três alunos, emprestam seus nomes reais às personagens. Enquanto alguns interpretaram novas personalidades, para obedecer ao fio narrativo proposto, outros puderam ser eles mesmos. Assim, Cantet realiza um misto de ficção, documentário e trabalho biográfico. A naturalidade das "atuações" de quem nunca antes teve experiência diante das câmeras surpreende.

Ao alimentar toda a execução do trabalho, da concepção à filmagem, com as experiências de cada participante, o diretor impregnou o filme com uma alma universal. Múltiplas visões falam ao espectador e o remetem às suas próprias vivências em sala de aula. É impossível não voltar no tempo e lembrar da época do ginásio, com as típicas piadas, desavenças e questionamentos que fazem parte dessa fase da vida de todos nós. Por mais que fale da realidade de um país específico, a classe da periferia francesa revela na ansiedade de seus jovens um sentimento global.

A empatia mágica transmitida pelo filme de Cantet conquistou todo o júri do Festival de Cannes do ano passado, arrebatando a Palma de Ouro com unanimidade. E conquista todo o público do cinema, que quase cede ao ímpeto de responder ao chamado do professor, dizendo “presente”.

Além de dirigir “Entre Os Muros da Escola”, Cantet escreveu o roteiro ao lado de François, autor do livro, e Robin Campillo, editor do filme. Na turma, ocupam os papéis de maior relevância os adolescentes Cherif Bounaïdja Rachedi, Louise Grinberg, Arthur Fogel, Franck Keïta, Rachel Régulier, Esmerálda Ouertani, Wey Huang, Qifei Huang, Boubacar Thouré e Carl Nanor. Além de ser consagrada em Cannes, a produção foi indicada à categoria de Melhor Filme Estrangeiro no último Oscar. Você pode assistir ao trailer aqui. E também já pode adquirir o livro que, como o filme, chegou ao Brasil este ano, pela Martins Editora.


Você também encontra esse texto no Outernative.

Quarta-feira, 18 de Março de 2009

Para assistir: Luz Silenciosa

A paz é maior que o amor

Noite. Tela completamente escura. Ruídos de insetos noturnos. Um só take. Nos próximos 5 minutos, o público acompanha o nascer do sol no horizonte, quase em tempo real. É nesse ritmo que Luz Silenciosa narra sua história. Perseguindo um realismo contemplativo, com atores amadores, nenhuma música, a não ser a que toca eventualmente no rádio, e arrastados planos-sequência, quando a cena não é composta por um único e longo quadro, o diretor mexicano Carlos Reygadas (Batalha no Céu) criou uma experiência sensorial que, ao invés de absorver, distancia o espectador. O tempo todo, a lente da câmera impõe sua visão estética apurada e em algumas passagens chega a, visivelmente, colocar-se entre a imagem e a plateia. Há uma barreira ali. E se você deseja mergulhar nessa realidade, precisa ir por si mesmo.

Mas se engana quem vê nesse distanciamento um defeito. Essa barreira entre o nosso mundo e o que é mostrado já existia antes do diretor chegar. Reygadas filma dentro de uma comunidade de menonitas, isolada do restante da civilização no norte do México. Trata-se de um grupo fechado, de hábitos simples, origem germânica e fé protestante. Os menonitas surgiram ainda na época da Reforma, derivados de outro grupo, os anabatistas. Mais ortodoxos, foram perseguidos assim como seus predecessores, espalharam-se pela Europa e chegaram às Américas. Também se dividiram e seu ramo mais conhecido – e ainda mais rígido – são os amish, que vivem nos Estados Unidos e Canadá.

Enquanto conta sua história, o diretor nos apresenta o dia-a-dia dessa comunidade, seus valores e comportamento. Para os menonitas, tudo que não seja referente ao trabalho e à família é descartável. Suas casas refletem suas leis espartanas. E o modo de filmar de Reygadas reflete tudo isso. A quase totalidade dos planos é perfeitamente simétrica. Assim como os valores da comunidade, a harmonia entre os objetos em cena é imutável.

Reygadas reproduz esse conceito quadro a quadro. Há uma excelente sequência que acompanha o zoom lentamente para dentro de uma oficina. À medida que a lente da câmera se aproxima do local, ela mantém o mesmo elemento ao centro do quadro, conservando a simetria à sua volta. Mas, a partir do momento em que os objetos de um lado e de outro ameaçam deixar de ser simétricos, ela vai deslocando lentamente o eixo para um dos lados a fim de preservar o equilíbrio visual.

O único elemento a discordar das regras que regem comunidade e direção é o adultério do protagonista, trama central do filme. Seu pecado é desestruturador dentro da configuração vigente. Tanto que a gravidade do tema é introduzida aos poucos. Nada é contado, mas apreendido. De início, sabemos que há algo errado naquela família que faz sua prece em silêncio antes da refeição. Depois, percebemos que o patriarca revolve seus pensamentos em culpa, tão pesados quanto o ritmo da narrativa. E enfim, compreendemos que ele se divide entre um amor passado e outro novo.

Ao trair, ele faz de quase todos seus cúmplices: o melhor amigo, o pai e até a própria esposa. De forma semelhante, ocorreu a escalação do elenco não-profissional. Reygadas desejava que membros da comunidade atuassem em seu filme. Durante algum tempo, sua busca não obteve sucesso por causa do tema contrário aos princípios locais. Até que um menonita mais aberto aceitou o convite para fazer o papel principal e ainda convenceu amigos e familiares a participar da produção. Seus pais no filme também o são na vida real.

Transposta essa barreira, Reygadas a reergueu para que o público apreciasse a história à distância. Além da visão simetricamente rígida, o diretor conscientiza o espectador da existência da câmera em dois momentos simbólicos. No primeiro, o marido e a amante se beijam em close, com os raios do sol refletidos na lente, emoldurando o casal com vários halos coloridos. No segundo, a esposa traída chora sob uma forte chuva, enquanto os pingos de água embaçam a imagem. Dessa forma sutil e, por que não, silenciosa, a luz sobre a lente traduz e opõe o estado de espírito das personagens. Uma sensibilidade que o trabalho inteiro exala.

Provavelmente, o elenco aceitou participar da produção porque percebera no adultério apenas um caminho para falar de algo maior. Algo que se esconde em cenas como a das crianças que são banhadas pelos pais numa água límpida, alheias aos problemas dos adultos. Ou no belíssimo e improvável beijo que valida a fé no inexplicável. Ou no poente que, completando o nascer do sol no início do filme, demonstra que a luz pode ir embora, mas sempre retorna.

Luz Silenciosa é o terceiro filme escrito e dirigido por Carlos Reygadas, mas é o primeiro lançado oficialmente nos cinemas brasileiros. Foi exibido pela primeira vez em maio de 2007, durante o Festival de Cannes, onde ganhou o Prêmio do Júri e concorreu à Palma de Ouro. Após rodar vários festivais, inclusive no Brasil, estreou no México somente em outubro daquele mesmo ano. No elenco, estão os menonitas Cornelio Wall Fehr, Peter Wall, Elizabeth Fehr e Jacobo Klassen. As duas personagens principais foram vividas pela alemã Maria Pankratz e pela canadense Miriam Towes.

O filme é a primeira produção mexicana não falada em espanhol. O dialeto ouvido é o plautdietsch, que une o alemão e o holandês e só é adotado por 500 mil pessoas em todo o mundo. Você pode conferi-lo aqui, no trailer.

Domingo, 15 de Março de 2009

Para assistir: Watchmen

Máscaras sociais

Em 1978, o público do cinema descobriu que o homem podia voar. Naquele ano, Richard Donner (16 Quadras) estreou o filme que, durante muito tempo, ficaria conhecido como a melhor adaptação das histórias em quadrinhos para o cinema: Superman. 31 anos depois, o super-homem das telas não usa capa ou colante, não demonstra sentimentos por seu par romântico, nem divide com o público a sensação do vento batendo no rosto planando sobre os edifícios. Ele discursa sobre táquions, teoria do caos e o mistério da vida, assuntos distantes do cidadão médio. O que aconteceu com os super-heróis como os conhecíamos?

A resposta está nos anos 1980. Foi nessa década que uma série de artistas mexeu com os temas do principal gênero dos quadrinhos estadunidenses. Frank Miller (O Cavaleiro das Trevas), Alan Moore (O Monstro do Pântano), Grant Morrison (Asilo Arkham) e Neil Gaiman (Sandman) aproximaram os comics de super-heróis do público adulto, com tramas maduras, protagonistas falíveis e uma noção turva de certo e errado. Em alguns casos, recheavam as tramas com referências à cultura pop, mitologia, literatura e outros assuntos de interesse do público-alvo. Foi nesse contexto que Moore se uniu a outro britânico, Dave Gibbons (The Originals), para conceber aquela que seria aclamada a melhor história em quadrinhos de todos os tempos: Watchmen.

Infelizmente, a revolução que se viu com o gênero na arte seqüencial não se repetiu no cinema. Nem poderia. O tema ainda era pouco experimentado nas telas. Enquanto as últimas edições de Watchmen ainda chegavam às bancas, Christopher Reeve via sua franquia ir por água abaixo com um quarto e equivocado filme do homem de aço. Isso depois de ter flertado com a comédia numa produção co-estrelada por Richard Pryor. Trajetória semelhante ainda se repetiria com o homem-morcego, que, entre 1989 e 1997, involuiu do visual gótico de Tim Burton para o glitter high-tech de Joel Schumacher, ambos igualmente cartunescos. Enquanto os quadrinhos procuravam se distanciar da ingenuidade em que nasceram, suas adaptações cinematográficas despencavam na direção oposta.

De olho nos erros da concorrente DC Comics ao levar seus medalhões Superman e Batman para o cinema, a Marvel Comics estreou na tela grande no ano 2000, com a trilogia X-Men e seu subtexto voltado às minorias. A partir daí, a editora passou a ocupar as salas escuras quase todos os anos, investindo em diretores em ascensão e encarando seus filmes não como um gênero isolado, mas conferindo a cada um deles um tom específico, voltado a públicos distintos. A bilheteria correspondeu.

Porém, ainda que a Marvel tenha dado um novo fôlego aos super-heróis no cinema, eles continuavam oferecendo o que as pessoas esperavam deles: escapismo. Um mundo melhor, em que o bem e o mal são claramente delineados e todos têm a segurança de que um prevalecerá sobre o outro no final. Oito anos depois do primeiro X-Men, a situação começou a mudar e o cinema de super-heróis abriu espaço para novos temas.

Em 2008, finalmente o espírito dos quadrinhos dos anos 1980 começou a ser adotado. O Cavaleiro das Trevas, filme dirigido por Christopher Nolan, ainda que divida com a hq homônima apenas o título em português (no original, a graphic novel de Miller chama-se The Dark Knight Returns), fragiliza no cinema de super-heróis os mesmos paradigmas que a minissérie obliterou nos quadrinhos, oferecendo uma abordagem realista, protagonistas corruptíveis e vilões dúbios.

Agora, em 2009, o gênero avança da forma mais ousada possível, adaptando sua obra máxima. Se nos quadrinhos foram necessários quase 50 anos desde o surgimento do Superman, em 1938, para alguém reinventá-lo, no cinema levou-se três décadas e um punhado de produções para essa mudança de 180° emergir. Em Superman 2 – A Aventura Continua, de 1980, o homem de aço abdicava de seus talentos para viver como humano ao lado de seu grande amor. Em Watchmen, o único herói com superpoderes desiste da humanidade e de sua paixão para se tornar literalmente um deus.

É importante fazer esse tipo de análise para mostrar que Watchmen – O Filme não pode ser ignorado. É certo que o quadrinho alcançou um patamar de obra-prima mais por suas experiências narrativas, envolvendo metalinguagem, fragmentos de informação, sequências gráficas nunca antes vistas, repetição de símbolos e disposição de elementos, grande parte disso não adaptado para o cinema. Mas a trama e a ambientação por si só são inovadoras o suficiente para alterar a forma como não apenas os mascarados, mas mocinhos e bandidos são vistos na tela grande. O olhar fatalista de Moore foi reproduzido com fidelidade pelo diretor Zack Snyder (300). E o que ele não pôde simplesmente emular, procurou transmitir, ainda que em menor proporção, de uma forma mais adequada ao audiovisual e à trajetória da sétima arte.

O texto dos quadrinhos, levado praticamente intacto às telas, surpreende por suas metáforas nada sutis sobre a condição humana e o imperialismo norte-americano, algo até então nunca encontrado nesse tipo de cinema. A fidelidade textual à fonte acaba por conferir um ritmo lento à adaptação, análogo ao tempo da narrativa original. O público de shoppings, desavisado e atraído pelo material de divulgação com tantos mascarados juntos, com certeza é apanhado de surpresa.

Isso não significa que Watchmen seja desprovido de ação. Há, sim, alguns momentos aqui e ali. Mas a violência psicológica é muito maior. Se num momento os heróis caminham indestrutíveis ao vento e em câmera lenta, saltam alturas improváveis com a ajuda de cabos e se socam a ponto de arrebentar paredes ou fazer voar o adversário, em outro são capazes de estuprar, mutilar, assassinar e revelar suas impotências diante da vida, sejam morais ou sexuais.

A ilustração propositalmente datada de Dave Gibbons, que evoca a inocência de um período dos quadrinhos que a minissérie ajudou a enterrar, é traduzida em um clima saudosista que permeia toda projeção. Nas palavras da primeira Espectral, vivida por Carla Gugino (O Gângster), “a cada dia o futuro parece mais sombrio, mas o passado, mesmo as piores partes, com o passar do tempo vai ficando mais brilhante”. As imagens dos Minutemen, o primeiro grupo de heróis da América nos anos 1940, são coloridas e cartunescas. A partir dos anos 1970, a paleta de cores vai escurecendo e os uniformes substituem os antigos tecidos por armaduras e roupas emborrachadas.

Snyder pouco fez analogia aos quadrinhos e acrescentou referências às adaptações cinematográficas e aos filmes de ação. Repare na cena em que o segundo Coruja, interpretado por Patrick Wilson (Pecados Íntimos) surge pela primeira vez de uniforme após sua aposentadoria e nos mamilos da armadura sarada do franzino Ozymandias, encarnado por Matthew Goode (Match Point). Assim, quando o primeiro der uma surra no outro, você verá o Batman de Burton socando o Batman de Schumacher. Já no flashback que mostra o fim da guerra no Vietnã, não apenas a Cavalgada das Valquírias foi retirada de Apocalipse Now, mas também o famoso ponto de vista sobre o ventilador de teto.

Ao preservar o material original e adicionar algumas idéias próprias, com seqüências inspiradas e outras longe da unanimidade, Snyder mostrou aos temerosos por sua escolha para a cadeira de diretor, entre os quais me incluo, que estavam equivocados. Claro que o departamento de marketing do estúdio exagerou em chamá-lo de “visionário”, com apenas dois filmes anteriores no currículo e uma carreira de videoclipes. Ele até poderia concorrer ao título caso tivesse conseguido adaptar toda a complexa experiência narrativa da minissérie, que, ao contrário da trama, provou-se inadaptável. Mas o lado nerd de Snyder salvou a produção de um destino pior.

Irônico constatar que justamente sua experiência em vídeos musicais, de onde vem a odiosa câmera em fast-slow-motion, aqui usada com alguma reserva, resultou na passagem mais comentada pelo público: a abertura. Afinal, os créditos iniciais nada mais são do que um longo clipe da canção The Times They Are A’Changin, de Bob Dylan, mostrando recortes da história dos EUA alterados pela existência dos super-heróis. Convivendo com os vigilantes, estão John Kennedy, Fidel Castro, David Bowie, Mick Jagger, Truman Capote, Andy Warhol. Alguns aparecem em primeiro plano, outros ao fundo das cenas. Se você não se importa em adiantar trechos do filme, pode ver a abertura aqui. Mas fica o aviso: na tela do cinema é bem melhor.

Ao lado da trama e do texto seco, essas passagens, com uma riqueza de detalhes surpreendente, prometem tornar o filme cult, independente de seu desempenho nas bilheterias e do valor dado pela crítica indecisa. Afinal, se para o público de massa falta heroísmo e para a imprensa especializada falta uma série de qualidades cinematográficas, entre as quais se pode citar atuações meramente técnicas, ambientação e caracterização artificiais e escolhas duvidosas da direção, tudo isso acaba eclipsado pela mão original de Moore. Não à toa, poucos dias após a estréia do filme, a obra best seller da DC Comics nos anos 1980 já se tornou o produto mais vendido em todo o site da Amazon.

Entre os blockbusters, Watchmen – O Filme se destaca por condenar o dualismo, desestabilizar o “bem” e absolver o “mal”, deixando a cargo do espectador julgar o que está assistindo. A história demonstra que tais conceitos são limitados demais para reger os dilemas humanos. E se você deseja voar para longe de tais discussões, melhor aguardar uma próxima adaptação de quadrinhos.

Muito antes da direção do filme acabar nas mãos de Zack Snyder, David Hayter (X-Men) já havia escrito o roteiro e abandonado o projeto, quando ele ainda não tinha um estúdio para financiá-lo. Elogiado pelo próprio Moore, autor da minissérie em quadrinhos, seu texto foi recuperado pela nova equipe responsável e passou pelas mãos do estreante Alex Tse, que procurou preservar o trabalho de Hayter. No elenco, além de Gugino, Wilson e Goode, estão Billy Crudup (O Bom Pastor), Malin Akerman (Vestida para Casar), Jackie Earle Haley (Pecados Íntimos) e Jeffrey Dean Morgan (P.S.: Eu Te Amo). Caso ainda não tenha visto, você assiste ao trailer do filme aqui.

Antes da estréia no cinema, a produção de Watchmen soltou na Internet quatro virais interessantes dentro do universo do filme. O primeiro instrui os cidadãos norte-americanos a denunciar os vigilantes mascarados, de acordo com a Lei Keene, que os colocou na ilegalidade. O clima de apreensão e o tom de didatismo ideológico do governo são perfeitos. O segundo simula um programa jornalístico real da rede de TV NBS sobre os 10 anos do surgimento do primeiro e único herói com superpoderes. O destaque é a reprodução fiel da estética televisiva dos anos 1970. Já o terceiro e o quarto são contemporâneos à época da trama. Um deles é um especial de TV que apresenta os personagens principais no estilo da MTV dos anos 1980. O outro é a gravação de um programa de entrevistas britânico, em que se discute a iminência de uma guerra nuclear. Detalhe: sua transmissão ocorre dois dias antes da história do filme se iniciar. Clique nos links para assistir.

O tempo total de Watchmen nos cinemas é de 2h40min, mas já foi anunciado que o DVD trará mais 30min de cenas cortadas em decorrência das exigências do estúdio. Nelas, estarão personagens coadjuvantes e tramas paralelas que não aparecem na versão lançada. Outro DVD, com o título “Contos do Cargueiro Negro”, trará uma animação relacionada à trama. Na minissérie original, os tais contos são uma revista de piratas que está sendo lida por uma das personagens. Várias vezes, seus quadros interrompem a narrativa principal e passamos a acompanhar a história em quadrinhos dentro da história em quadrinhos. Junto com a animação, o disco trará o documentário “Sob O Capuz”, que adapta em vídeo o livro fictício escrito por outra personagem da série e cujos trechos são publicados no quadrinho. O trailer da animação você vê aqui.

Esse texto foi originalmente publicado no site Outernative.

Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Para ler: Watchmen

O Super-homem existe

Uma história em quadrinhos figura na lista da revista Time entre os 100 romances mais importantes do século XX. E é a única até hoje a ser incluída nessa lista. O impressionante é que a obra pertence ao gênero mais comercial e subestimado do mercado de HQ's: o de super-heróis. Watchmen, escrita por Alan Moore (V de Vingança) e ilustrada por Dave Gibbons (The Originals) já recebeu diversos títulos, entre eles o de “Cidadão Kane” ou “Ulisses” da arte sequencial, o de Bíblia dos quadrinhos, a melhor graphic novel de todos os tempos.

Entusiasmos à parte, essa aventura de capa e máscara apresenta, por um lado, aspectos formais e temáticos que trouxeram mudanças cruciais para a mídia e o gênero em que está inserida e, por outro, contornos dramáticos, históricos, sócio-políticos e filosóficos que explicam sua importância cultural num âmbito maior. Com uma adaptação cinematográfica a caminho, depois de ter sido considerada inadaptável durante mais de 20 anos, vale a pena ver o que há por trás do hype promovido pelo estúdio e mostrar por que a obra original consagrou-se entre a crítica.

Quem vigia os vigilantes? – Alan Moore

Watchmen foi publicada pela primeira vez em meados da década de 1980 como uma minissérie mensal em 12 edições. Nessa época, o então presidente dos EUA, Ronald Reagan, havia proposto o mirabolante projeto “Guerra nas Estrelas”, uma rede de satélites artificiais ao redor do planeta com finalidade bélica. Para a opinião pública, a estratégia significava reacender um dos maiores temores da Guerra Fria. Logo Reagan, que gozava de boa imagem entre o público, seria o louco que iria tornar real uma batalha nuclear entre as duas maiores superpotências mundiais? Esse era o homem em quem os norte-americanos haviam confiado para velar por eles e, em extensão, pelo mundo?

Um dos maiores temas de Watchmen, a desconstrução do mito do super-herói, tem, na verdade, um contexto político. Seja Reagan nos anos 1980, seja Barack Obama, nos dias de hoje, a humanidade está sempre disposta a acreditar em líderes que se colocam na posição de heróis. Governantes que se promovem com a imagem de salvadores do mundo. “John Kennedy aperta a minha mão e pergunta como é ser um super-herói. Eu respondo que ele deve saber e o presidente concorda, rindo”, narra o Dr. Manhattan, uma das personagens principais da história.

Mas o que acontece quando um desses pretensos salvadores vem a público com uma proposta insana? Ou quando seu meio-irmão é preso por porte de drogas ilícitas? Ainda que a confiança prevaleça, esses homens descem um degrau em direção ao terreno em que pisamos todos nós, seres humanos comuns. É nessas condições que Moore resolveu contar sua história de super-heróis. Num mundo real, onde eles não existem.

Em Watchmen, uma pessoa que decide usar fantasia e máscara e sair pelas ruas à noite para combater o crime precisa ter um desvio de personalidade. Tem necessidade de compensar alguma falha de caráter sentindo-se bem ao fazer bem à sociedade. Não há heróis, no sentido lato da palavra. Há, sim, justiceiros voluntários e anônimos. “Éramos loucos, éramos pervertidos, éramos nazistas (...) fizemos muitas coisas boas por nossas respectivas comunidades para sermos taxados como meras aberrações, sejam sociais, sexuais ou psicológicas”. Essas são as palavras de Hollis Mason, um antigo mascarado aposentado, mas poderiam ter saído da boca de um padre pedófilo. Moore instiga uma reflexão sobre o que é ou não tolerável entre aqueles que, de alguma forma, lideram os demais.

Para que os leitores estivessem dispostos a receber essa crítica, uma decisão que repercutiria na essência da trama foi não destacar pessoas admiradas pelo povo, com exceção da citação a Kennedy em um único quadro. Os EUA, então, ganharam um presidente diferente daquele que governava o país em 1985, quando a história se passa. Mas, ainda assim, real: Richard Nixon. Era necessária uma alteração na realidade, justificada pela presença de vigilantes mascarados. O autor, então, demonstrou como a existência de um super-homem, a partir dos anos 1960, modificaria o curso da humanidade.

Um mundo forte e adorável onde morrer – John Cale

Duas guerras marcaram o período da Guerra Fria e tiveram significados semelhantes para os dois polos do conflito. A Guerra do Vietnã foi um fiasco para os EUA enquanto a Guerra do Afeganistão é considerada uma das razões para o colapso soviético. Ambas são retratadas com destaque em Watchmen. Em 1980, a derrota norte-americana no Vietnã ainda era uma ferida aberta, enquanto o planeta assistia ao desenrolar da guerra na nação afegã. Com os Estados Unidos apoiando os rebeldes e a URSS do lado do governo, o confronto entre as superpotências ameaçava, mais uma vez, deixar de ser silencioso.

No mundo de Watchmen, os resultados foram invertidos e a apreensão mundial foi elevada a um patamar cataclísmico. A personagem conhecida como Dr. Manhattan, o primeiro e único super-humano do planeta, vence praticamente sozinha a Guerra do Vietnã para as tropas estadunidenses. A presença de uma criatura poderosa a serviço de um só governo e que poderia acabar sozinha com todos os silos nucleares do mundo, ao invés de fazer retroceder o embate de forças entre as duas nações, acaba por alimentá-lo. A União Soviética não apenas invade o Afeganistão como ocupa também o território do Paquistão, colocando-nos às portas da 3ª Guerra Mundial. O pretenso salvador vem trazer destruição.

O desfecho no Vietnã alterado pelas mãos de Moore acaba inspirando críticas ao verdadeiro resultado. “Se a gente tivesse perdido essa guerra, acho que o nosso país ia ficar meio louco”, diz um dos heróis da trama, ironicamente batizado de Comediante. Na mesma cena, ele é ferido por uma vietnamita grávida, que ameaça: “Acho que vai se lembrar de mim e do meu país. Acho que vai se lembrar enquanto viver”. Quando a mulher é assassinada a sangue frio, sob os olhos do Dr. Manhattan, que, neste caso, representa a autoridade máxima norte-americana em território inimigo, o super-humano ouve: “Você ficou olhando (...) mas não moveu um dedo”. O trauma do passado recente é outro tema constante na minissérie.

Nessa nova realidade, não apenas a corrida armamentista foi alterada, mas também o dia-a-dia dentro dos EUA. A existência de um super-humano e as pesquisas desenvolvidas através dele promoveram um salto tecnológico, tornando possível, entre outras coisas, a produção em série de carros elétricos e sua existência nas ruas. Os justiceiros mascarados receberam represálias das autoridades reconhecidas pela lei, obtendo cada vez mais a rejeição pública e caindo na ilegalidade.

Voltando ao âmbito político, o escândalo de Watergate não ocorreu e, com a vitória no Vietnã, o presidente Richard Nixon passou longe da renúncia. Pelo contrário, ocupou a Casa Branca por vários mandatos sucessivos e ainda está à frente do governo em 1985. Nas eleições que estão por vir, o candidato da oposição é um certo ator com as iniciais R.R.. A piada é que não se trata de Ronald Reagan, mas de Robert Redford. Para conquistar a confiança da população e se eleger presidente, basta construir uma celebridade de perfil heróico.

“Em uma era de estresse e ansiedade, quando o presente parece instável e o futuro improvável, a resposta natural é afastar-se da realidade, recorrendo tanto a fantasias do futuro como a visões modificadas de um passado semi-imaginário”. Esse texto é a defesa de Ozymandias, um vigilante aposentado que se transformou em empresário, para a criação de uma marca de perfume, o Nostalgia. Mas, como o texto de Moore nunca tem apenas um significado, essa passagem sugere que a alteração do curso da história em Watchmen é resultado da apreensão mundial pela Guerra Fria e uma necessidade por lamento e escapismo.

Não à toa, em toda a minissérie prevalece um clima saudosista. Para criar esse ambiente, o autor mescla antigas características de duas mídias diferentes: o cinema e os quadrinhos. Enquanto ele busca reproduzir a estética noir do primeiro, extrai do segundo referências a uma época mais inocente e politicamente incorreta. E essa fusão está longe de ser gratuita, mas se relaciona com a trajetória das duas artes.

Os super-humanos prendem quem saiba mais do que eles – Bob Dylan

Se o fim da Segunda Guerra Mundial atirou o mundo num estado de apreensão que duraria até o desmantelamento da União Soviética, o desfecho da Primeira Guerra significou o início de um período de crise para vários países, especialmente os EUA. Os efeitos da Grande Depressão, iniciada com a quebra da bolsa de valores de New York, arrastaram-se pelo mundo por toda a década de 1930, provocando queda na produção industrial, fechamento de empresas e desemprego. Embora as circunstâncias fossem diferentes da Guerra Fria, a crise econômica mundial, duas décadas antes, gerou na população valores semelhantes de pessimismo e incerteza do futuro.

A situação econômica e o clima social acabaram influenciando a produção cultural norte-americana daquela época. No cinema, os filmes noir apresentavam um mundo cínico, onde as figuras do herói e da mocinha foram substituídas pelas do anti-herói e da femme fatale. Nos quadrinhos, os aventureiros das pulp fictions, que haviam se tornado sucesso escapista pelas aventuras surreais, papel inferior e preço baixo, tornaram-se obsoletos com o surgimento de um novo gênero: o dos super-heróis. Se o mito era destruído em uma mídia, a outra o extrapolava.

Watchmen resgata essas duas manifestações culturais contrastantes, reflexo do temor de uma época, e as encaixa numa nova era nuclear repleta de dúvidas. A maior parte da história é narrada por Rorschach, um herói mascarado caracterizado como detetive, que veste chapéu e sobretudo e emprega muita violência em suas investigações. Sua narração ocorre sob a forma de diário, onde registra uma visão sombria sobre um mundo decrépito. Mais noir, impossível. Além disso, os cenários e as personagens foram todos concebidos num estilo old fashioned.

Cada personagem foi criada seguindo estereótipos identificados entre os super-heróis. O Dr. Manhattan é o único ser todo-poderoso, uma referência direta ao Superman, com uma abordagem nunca antes conferida ao homem de aço: apesar da aparência humana, seus poderes o fazem se distanciar cada vez mais da humanidade até perder o interesse por ela. Seu nome foi inspirado no Projeto Manhattan, que desenvolveu a bomba atômica estadunidense. Como contraponto, o Coruja é a personagem mais humana da série, reconhecendo sua impotência diante da vida, do sexo e do futuro de seu país. Nos quadrinhos, Batman sempre foi considerado o oposto do Superman. Com o Coruja, ele divide o aparato tecnológico para combater o crime e o símbolo inspirado em um animal.

Rorschach, como já mencionado, é o detetive da trama. Sua imagem evoca algumas personagens das décadas de 1930 e 1940, como O Sombra, The Spirit e O Aranha, ou que foram inspiradas nessa época, como O Questão e Mr. A. O Comediante, cujo assassinato é o estopim de toda a minissérie, é o espião a serviço do governo. Sob muitos aspectos, é comparado a Nick Fury, herói da Marvel Comics, líder da agência de espionagem S.H.I.E.L.D. Ozymandias, cujo nome foi inspirado no título grego do faraó Ramsés II, é o herói cercado por uma torre de vidro, o magnata, célebre por sua inteligência e empreendedorismo. Ele não está acima da humanidade, como o Superman ou o Dr. Manhattan, mas se vê nesse patamar. A personagem mais conhecida que se equipara a ele em descrição é o empresário Tony Stark, o Homem de Ferro. Por fim, Espectral vem preencher a lacuna de uma figura feminina num ambiente predominantemente masculino.

Em Watchmen, essas figuras heróicas são interligadas por laços inspirados na própria história dos quadrinhos. O nascimento do Superman em 1938, como o primeiro herói com colante e superpoderes, pôs no ostracismo uma série de personagens que nada tinham de super. Na minissérie, o surgimento do Dr. Manhattan surte o mesmo efeito entre os vigilantes da velha guarda, que começam a se aposentar. Os jovens mascarados da nova safra de heróis uniformizados nada mais são do que uma mudança necessária diante dos novos tempos, tal como ocorreu entre a Era de Ouro e a Era de Prata dos quadrinhos.

Pesquisadores costumam dividir a trajetória das HQ’s norte-americanas em “eras”, seguindo a tradição greco-romana em separar a história da humanidade. A Era de Ouro foi o período do surgimento dos super-heróis, na esteira do Superman, e encontrou seu declínio quando psicólogos e pedagogos começaram a acusar a mídia como responsável por diversos males entre os jovens, como violência e consumo de drogas. Um novo período surgiu com a Era de Prata, que criou novos heróis e resgatou outros da era anterior, dando-lhes uma roupagem mais adequada à época. Uma das características que marcaram essa fase foi a inclusão de elementos de ficção científica, inspirados na corrida espacial e armamentista da Guerra Fria.

O Dr. Manhattan é uma figura que condensa referências tanto ao início da Era de Ouro dos quadrinhos, quanto da transição desta para a Era de Prata. Por um lado, ele é o Superman da série. Por outro, o acidente de laboratório que o originou, no início da década de 1960, é contemporâneo às personagens criadas na segunda era, como o Homem-Aranha, o Hulk e o Quarteto Fantástico. A tecnologia dos carros elétricos, tornada real graças à personagem, leva o mesmo símbolo de um super-herói da DC Comics, The Flash. O velocista escarlate, retirado da Era de Ouro e reinterpretado para a era seguinte, é considerado um divisor de águas entre as duas. Diante de tantas referências às eras dos quadrinhos, é no mínimo irônico perceber que Watchmen tenha se tornado um dos marcos do início de uma nova era, chamada Moderna.

Outra importante analogia com a história das HQ's é a Lei Keene, que no universo criado por Moore colocou o vigilantismo na ilegalidade e impôs aos heróis sua aposentadoria. A promulgação da lei encontra um paralelo na vida real: a instituição do Comics Code Authority, uma espécie de código de ética que passou a proibir a publicação de diversos temas nos quadrinhos. O código foi uma resposta às acusações de que gibis promoviam a delinquência juvenil. Então, em meados dos anos 1950, final da Era de Ouro, enquanto o conteúdo considerado ofensivo era banido, editoras foram fechadas, títulos cancelados e personagens esquecidas.

Mas a principal vítima do Comics Code Authority não foi o gênero dos super-heróis, e sim os quadrinhos policiais, de terror e de piratas de editoras como a EC Comics, que se viu obrigada a encerrar suas atividades. Alan Moore prestou uma grande homenagem à empresa e a um de seus ilustradores, Joseph Orlando, integrando ambos à sua história, como responsáveis pela revista fictícia “Contos do Cargueiro Negro”. O título é uma aventura paralela a Watchmen, que uma das personagens coadjuvantes lê enquanto a trama principal se desenrola. É uma história em quadrinhos dentro da história em quadrinhos e uma das várias experiências narrativas que Moore imprimiu em sua série.

Para alguns, os velhos fantasmas falam. Para outros, são mudos – Eleanor Farjeon
A partir da 3ª edição, duas personagens coadjuvantes passam a fazer parte da série Watchmen: um velho jornaleiro e um jovem negro, que permanece durante toda a história sentado ao lado da banca de jornal, enquanto lê uma revista em quadrinhos. O título em questão chama-se “Contos do Cargueiro Negro” e apresenta a aventura de um homem ilhado, único sobrevivente de um ataque pirata, que precisa atravessar o mar antes dos corsários e avisar sua cidade natal do perigo que se aproxima. Por vezes, os quadros dessa história se misturam aos de Watchmen e ambos se correspondem através de palavras e expressões-chave. Fora isso, a princípio, não há nenhuma relação entre as duas narrativas, até Moore revelar o conceito que as cerca. Aos poucos, revela-se uma experiência de metalinguagem que enriquece ainda mais o desfecho da trama central.

O estabelecimento das duas personagens, o jornaleiro e o leitor de quadrinhos, ajudou Moore a discorrer em sua obra sobre a produção e o consumo da informação. São duas pessoas com hábito de leitura, porém com percepções diferentes dessa prática e, em consequência, do mundo. Por meio do primeiro, o autor exemplifica a superficialidade e a miopia causada pelo excesso de dados à disposição: “Eu sou jornaleiro, droga. Sou bem informado. (...) Sabe, eu leio tudo quanto é primeira página”.

Já o leitor de quadrinhos encontra-se imerso num mundo de alienação. Outra personagem, Hollis Mason, ao recordar em sua obra biográfica fictícia “Sob O Capuz” as inspirações para se tornar um vigilante mascarado, menciona com nostalgia o escapismo proporcionado pelas HQ’s, sua moralidade irreal e valores absolutos de bem e mal: “o que era bom jamais suscitava a menor das dúvidas e (...) o que era mau inevitavelmente sofria algum castigo apropriado. (...) Em que mundo você preferiria viver se pudesse escolher?”. O que pessoas como o jornaleiro e o leitor de quadrinhos teriam de lúcido para opinar sobre o panorama sócio-político em que vivem? “A gente devia bombardear até eles derreterem”, diz o jornaleiro a respeito da postura norte-americana em relação aos soviéticos.

Sobre esse assunto, Moore apresenta uma opinião diferente através de outra personagem, o Prof. Milton Glass, um cientista militar a serviço do governo dos EUA. No livro fictício “Superpoderes e Superpotências”, o professor oferece uma visão sobre os participantes da Guerra Fria que é contrária à ideologia dominante no país: “Foi o fracasso de Hitler em seu ataque ao território russo que assegurou a derrota alemã. Embora isso tenha sido pago principalmente com vidas soviéticas, o mundo inteiro colheu os benefícios. Com o tempo, a contribuição russa para o esforço de guerra foi minimizada e até ignorada, na medida em que tornamos mais gloriosa a participação americana e esquecemos a de nossos ex-aliados. Os russos, no entanto, não a esqueceram”. É uma ironia de Moore retratar a visão preconceituosa das HQ's como mídia alienante ao mesmo tempo em que ele próprio, autor de quadrinhos, apresenta ao leitor um texto tão esclarecido. A intenção do autor aqui é fazer com que suas personagens e textos “dialoguem” com a própria narrativa da minissérie para demonstrar que a alienação ou o conhecimento não são definidos pelo que se lê, mas por como se lê.

Outra atitude de Moore que questiona a origem da informação é a simulação de duas linhas editorias diferentes, representadas pela revista Nova Express e pelo jornal New Frontiersman, ambos fictícios. Em uma de suas reportagens, o tablóide de extrema direita defende-se das acusações feitas pelo veículo de comunicação rival: “Nova Express faz referências aos heróis fantasiados como descendentes diretos da Ku Klux Klan, mas é preciso ressaltar que (...) a Klan originalmente surgiu porque pessoas decentes nutriam temores perfeitamente cabíveis pelo bem-estar e a segurança de entes queridos quando forçados a conviver intimamente com indivíduos de uma cultura muito menos avançada moralmente”. Atribuir uma declaração preconceituosa como essa a um meio informativo vem representar a distorção das notícias e o perigo de um conhecimento equivocado, construído por uma só fonte. Rorschach, o narrador da série que detém uma visão em preto-e-branco do mundo, tem no New Frontiersman sua única leitura.

Textos fictícios como os livros “Sob O Capuz” e “Superpoderes e Superpotências”, a revista Nova Express e o jornal New Frontiersman representam uma outra técnica narrativa amplamente usada em Watchmen. Moore acrescentou anexos ao final de cada edição da minissérie, contendo obras, cartas e documentos relacionados à história e suas personagens. Esses anexos, ao contrário do que se poderia pensar, não são apenas informações adicionais, mas ajudam a levar a trama adiante. Há personagens e eventos que são mencionados pela primeira vez nesses textos e somente mais à frente são retomados pela série. E outros que sequer são vistos nos quadrinhos. Experiência semelhante é realizada hoje com sites fictícios e virais relacionados a filmes e séries de TV, como Lost, por exemplo, que expande sua experiência para além do formato tradicional. A diferença é que a Internet propicia a publicação dessas informações fora da mídia original, algo que Moore de certa forma adiantou ainda na década de 1980.

Mas, então, como fugir às informações manipuladas pela mídia e construir um conhecimento verdadeiro? A resposta a essa pergunta é representada por Ozymandias. Na série, ele é considerado o homem mais inteligente do mundo. Moore o mostra observando noticiários, desenhos animados, telenovelas, filmes, publicidade e todo o tipo de informação através de vários monitores de TV ligados simultaneamente e trocando de canal de forma aleatória. Seu conhecimento não é uma mera reprodução do que foi transmitido, mas a síntese obtida da análise de diversas fontes.

É o que a personagem chama de caos semiótico. Em suas palavras, essa tarefa consiste em “rearranjar as palavras e imagens para escapar à análise racional, permitindo a evasão subliminar de laivos do futuro (...) Estabelecidos tais pontos de referência, uma visão de mundo emergente torna-se gradualmente discernível em meio ao ruído opaco das mídias”. O que Moore sugere nessa passagem é estimular as pessoas a encontrar pontos de contato em diferentes informações e, assim, perceber um cenário maior por trás delas, podendo, inclusive, intuir o futuro.

Essa observação de Ozymandias é particularmente inspirada no método de edição de William S. Burroughs, autor citado pela própria personagem. Burroughs foi um escritor norte-americano, admirado por Moore e influência declarada na concepção de Watchmen. Alguns de seus romances incluíam textos de autores diferentes, que auxiliavam na transmissão da mensagem desejada. A informação completa era obtida através dessas colagens. Um dos livros em que Burroughs emprega essa técnica, Nova Express, emprestou seu título a uma das mídias fictícias do universo de Watchmen. Como ele, Moore inseriu fragmentos de vários autores na minissérie, cujos temas encontram eco na trama: Bob Dylan, Billie Holiday, David Bowie, Iggy Pop, Nat King Cole, William Blake, John dos Passos, Nietzsche e outros, surpreendendo pelo ecletismo.

Algumas referências, distribuídas ao longo das 12 edições da minissérie, têm a intenção de preparar subliminarmente o leitor sobre o surpreendente desfecho. Em alguns quadros, é possível ver os cartazes de filmes clássicos de ficção científica, como “Guerra dos Planetas” e “O Dia Em Que A Terra Parou”. O próprio livro de Burroughs, Nova Express, foi concebido como a segunda parte de uma trilogia sobre a era espacial.

Burroughs também inspirou Moore na concepção de uma técnica que, ao lado da metalinguagem e dos pré-virais, seria um dos marcos narrativos de Watchmen: a repetição de símbolos. O ídolo utilizou esse recurso na única história em quadrinhos que escreveu, “The Unspeakable Mr. Hart”, e seu discípulo a adaptou à série, ajudando o ilustrador Dave Gibbons a criar uma forte iconografia.

Que imortal olho ou guia pode captar-te a temível simetria? – William Blake

O símbolo usado na capa da primeira edição de Watchmen e que passou a representar toda a minissérie é o smiley com o olho esquerdo manchado de sangue. A figura sorridente traduz a pureza e otimismo dos quadrinhos de super-heróis das eras antigas que Alan Moore maculou com sua trama sombria e pessimista. Ela está no button que cai do uniforme do Comediante, quando este é assassinado na abertura da série, e na camiseta de um estagiário do tablóide New Frontiersman, sempre significando o fim da inocência. E por uma feliz coincidência, um círculo sorridente é a forma exata de um acidente geográfico do planeta Marte, onde uma parte da história se passa, chamado The Galle Crater.

O globo amarelo do smiley reserva semelhanças com o relógio amarelo que conta de onze e cinqüenta até a meia-noite, indicando o nível da tensão entre os Estados Unidos e a União Soviética. Do mesmo modo, há uma repetição de vários planos de detalhe em objetos circulares e translúcidos, como o frasco do perfume Nostalgia, a arma espelhada do vilão Moloch, a bola de vidro com neve da jovem Espectral e diversos outros exemplos.

O círculo é uma forma simétrica perfeita, não importa por onde ele seja seccionado, desde que o corte passe por seu centro. A simetria é uma condição recorrente nos símbolos da série, como o próprio smiley, o relógio, a caveira pirata, a pirâmide, as tábuas e a máscara de Rorschach. Também é o tema de toda a quinta edição de Watchmen. Se abrir a revista nas duas páginas centrais, você verá que a disposição dos quadros de uma é o reflexo perfeito da outra. E se virar as folhas, uma adiante e uma para trás, perceberá que todas as páginas, da mesma forma, são espelhadas.

Não acaba aí: as personagens presentes em páginas equidistantes do centro da edição são as mesmas. Na página 10, para citar o exemplo mais interessante, o Coruja observa Espectral através do espelho enquanto ela vai embora do restaurante em que se encontram. Na página 19, é ela quem o observa através do espelho, deixando seu quarto. Entre as páginas 10 e 19, há exatas quatro páginas até o miolo da revista. Em outra situação, nas seis primeiras páginas, a ação dos quadros deixa a rua para entrar em um sobrado através da janela do segundo andar, para daí descer as escadas até a cozinha no térreo e sair pela porta da frente. Nas seis últimas páginas, os desenhos nos guiam ao mesmo local pela porta da frente, vamos até a cozinha, subimos as escadas e saímos pela janela, encerrando o capítulo na rua. É o caminho inverso.

A repetição aparentemente aleatória de imagens e a simetria inerente a elas constituem um notável estudo sobre a Teoria do Caos. Assim como Ozymandias procura coerência entre as informações de vários canais de TV e Burroughs busca transmitir um conhecimento completo através de fragmentos textuais, a Teoria do Caos pesquisa no acaso aparente uma ordem intrínseca. O leitor de Watchmen é instigado por Moore e Gibbons a investigar compulsivamente um padrão entre as ilustrações da série.

A mesma mancha de sangue no olho esquerdo do smiley é encontrada sobre o olho esquerdo de um buda impresso num cartaz. E também no olho esquerdo do assassino, quando sua identidade é revelada no final. Em dois momentos, uma marca de dedo possui forma semelhante a da mancha de sangue. A primeira é deixada sobre uma superfície circular empoeirada; a outra, numa janela embaçada pela chuva, revelando lá fora a forma redonda da lua cheia.

O caso mais notável e significativo para a minissérie é o da pirâmide. O leitor acostuma-se com ela desde a primeira página e jamais imagina que uma forma tão banal, apesar de frequente, tenha a ver com a explicação da trama. Logo na abertura, os quadros que mostram o assassinato do Comediante em flashback são alternados com quadros do momento atual, em que dois detetives tentam deduzir o que houve no apartamento arrombado do herói. A disposição dos quadros no tempo passado forma um triângulo, assim como os do tempo presente. Como a sequência dura duas páginas, são quatro triângulos: as quatro faces de uma pirâmide.

Importante mencionar que todas as páginas da minissérie desenhadas por Gibbons são formadas por nove quadros de dimensões idênticas. Ainda que dois ou mais quadros sejam fundidos em um, a grade estrutural é sempre a mesma.

Todos esses padrões seriam uma coincidência, uma grande obra do acaso? Para Rorschach, segundo suas palavras, “a existência é aleatória. Sem padrão, a não ser o que imaginamos depois de contemplar tudo por muito tempo. Sem sentido, a não ser o que escolhemos impor”. Para o Dr. Manhattan, existe uma ordem no universo. Uma ordem intrínseca dentro do caos da improbabilidade, que faz o oxigênio espontaneamente se transformar em ouro entre as várias reações químicas que ocorrem dentro de uma supernova, ou um espermatozóide Y e um óvulo X gerarem uma vida específica, dentre infinitas possibilidades. É o que Moore, através da personagem, chama de milagres termodinâmicos. A vida é um milagre. Um casal que se beija é um milagre. Uma letra R espelhada formar uma caveira pirata com seu reflexo é um milagre.

Ozymandias compreende a ordem dentro desse terreno caótico em sua busca pelo conhecimento. Mas a personagem, como todo aquele que se coloca numa posição acima dos demais, superestima-se. Não somos capazes de reconhecer todos os sistemas dentro do caos e determinar o resultado de absolutamente tudo. Em determinados casos, a precisão da predição dos eventos depende de uma habilidade infinita para armazenar os dados pesquisados. E não há homem ou máquina com memória infinita. Não há como antever todas as variáveis. Esse é o conceito defendido pela teoria do Efeito Borboleta e traduzido na cena final de Watchmen.

Mas, como sempre, não é preciso chegar ao final para intuir o que Moore planejou. “Basta” entender os sinais, os fragmentos de informação. A borboleta é mencionada ou vista, pelo menos, em duas edições da minissérie. Tudo é uma questão de como se enxerga. Assim como Alexandre, o Grande desatou o Nó Górdio com sua espada e Ozymandias pareceu ter encontrado a solução para os problemas mundiais. São atitudes que requerem a análise dos fatos sob uma nova perspectiva e essa parece ser uma das palavras-chave para a compreensão do intrincado quebra-cabeças que é Watchmen.

A ti o abismo também contempla – Friedrich W. Nietzsche

Watchmen é, na maior parte do tempo, narrada por Rorschach. No entanto, por vezes, outras personagens assumem o lugar de narrador na história, quase sempre relembrando o passado. Dessa forma, a minissérie inteira é narrada sempre sob a perspectiva de uma pessoa diferente. O leitor não tem contato direto com a realidade apresentada, mas a apreende por meio de diferentes visões desta.

É o que ocorre com o Comediante. Como a personagem morre na abertura da série, tudo o que o leitor sabe a seu respeito são as opiniões dos demais heróis a seu respeito. Sempre o vemos em flashback, como parte das recordações de alguém. Não é raro o mesmo evento ser narrado mais de uma vez sob um ponto de vista distinto.

Moore utiliza com frequência o recurso do flashback. Algumas edições da minissérie, por exemplo, são dedicadas a narrar o passado de uma das personagens. Isso ocorreu por um motivo extremamente banal: o autor percebeu que sua história só possuía enredo suficiente para preencher seis edições, ao invés das doze que o contrato previa. Mas a solução encontrada pelo autor fez justiça à série. Por seis edições alternadas com a trama principal, esta se interrompe para nos aprofundarmos melhor nas motivações de seus atores.

A única personagem cujo capítulo dedicado a ela não possui flashback algum é o Coruja. Isso ocorre porque o herói, saudosista, já vive no passado. Suas noites de sábado são preenchidas por longas conversas com Hollis Mason, o primeiro Coruja, hoje aposentado e mecânico de automóveis, especialista em consertar “modelos antigos”. Tirando as últimas páginas, toda a edição se passa dentro do ninho do herói, mostrando o desenvolvimento de sua relação com a heroína Espectral.

As várias perspectivas de uma única cena são representadas visualmente pelo cruzamento de duas ruas, formando quatro esquinas. Nelas, a maior parte das personagens principais e coadjuvantes vive e se cruza durante toda a série. Em uma delas está a banca de jornal, onde um jovem lê a revista “Os Contos do Cargueiro Negro”. Em outra, está o Gunga Dinner, restaurante que parte dos heróis frequenta. Na terceira, está o Cine Utopia, cujos filmes em cartaz têm algo insuspeito a acrescentar à trama, como citado anteriormente. Na última, um abrigo nuclear torna bastante presente a apreensão por uma 3ª Guerra Mundial.

Essas esquinas vão sendo apresentadas aos poucos e somente no meio da série percebemos que todas se encontram no mesmo cruzamento. Para isso, o ilustrador Dave Gibbons sempre mostra uma esquina sendo observada pelo ponto de vista da calçada em frente e, no próximo quadro, altera o sentido da visão. Nas edições onze e doze, uma sequência de quadros faz uma rotação por essas esquinas, enxergadas pela primeira vez do centro das duas ruas, revelando similaridades e diferenças dos vários pontos de vista de uma mesma situação.

A visão fragmentada e a análise sob perspectivas diferentes relacionam-se com todas as outras técnicas narrativas empregadas por Moore. A metalinguagem dos “Contos do Cargueiro Negro”, a simulação de veículos de comunicação com linhas editoriais distintas, a técnica de observação da realidade de Ozymandias, a partir de um caos semiótico, os flashbacks dos heróis sobre o Comediante, a repetição de palavras e símbolos que transmitem mais de um significado.

Encontrar os pontos de contato entre essas múltiplas visões do espaço e do tempo significa gerar um conhecimento pessoal e único. Assim como Moore encontrou no Dr. Manhattan um ponto de contato entre a Era de Ouro e a Era de Prata dos quadrinhos. Ou como ele encontrou em Watchmen um ponto de contato entre a ansiedade e as apreensões da Grande Depressão e da Guerra Fria. Épocas e contextos diferentes, contraditórias até, imersas em ideologias opostas de celebração e reflexão, reconstrução e destruição, porém uma refletindo as mesmas emoções da outra. Uma sucessão de eventos contrários, porém com detalhes simétricos, que guardam uma relação intrínseca de causa e efeito. Ordem no caos. Tudo está ligado.

Se eu soubesse disso, teria me tornado um relojoeiro – Albert Einstein

O Dr. Manhattan apresenta um novo ponto de vista sobre a vida humana e o universo. No capítulo nove de Watchmen, ele afirma que “o tempo é simultâneo, uma jóia intrincada que os humanos insistem em enxergar um lado por vez”. É uma menção à teoria da relatividade de Albert Einstein, que enxergou no tempo, assim como no espaço, o elemento de uma entidade única, formada por quatro dimensões que obedecem a noções geométricas, como uma jóia. Assim, não apenas a compreensão do espaço é uma questão de perspectiva, mas também a do tempo. E ela está condicionada ao encontro dos pontos de contato que unem os eventos através da história e os torna não-lineares, mas coincidentes, formando um plano.

Na defesa da relatividade do tempo, o autor utiliza todo o capítulo quatro, dedicado ao Dr. Manhattan, para transmitir uma sensação de tempo não-linear, que seria o modo como a personagem sobre-humana enxerga. Para isso, a narrativa vai e volta no relógio a todo instante, como se todos os fatos se dessem simultaneamente: “A fotografia está na minha mão (...) Em doze segundos, eu a solto na areia aos meus pés e me afasto dali. Ela já está caída, doze segundos no futuro. Dez segundos agora. (...) Eu a encontrei num bar abandonado, 27 horas atrás. Ela ainda está lá, 27 horas no passado. (...) Eu ainda estou lá, olhando para ela”. É a leitura mais densa de toda a minissérie.

Segundo a teoria de Einstein, não há um ponto de referência absoluto. Nenhum evento é igual para pontos de vista diferentes, no tempo ou no espaço. Nossa visão das estrelas, por exemplo. Enxergamos não o que elas são, mas o que eram, devido a distância que nos separa delas e o tempo que sua luz leva para chegar até nós. “Só o que vemos das estrelas são suas velhas fotografias”.

Moore brinca com o tempo a todo instante. Além dos flashbacks evidentes, há idas e vindas sutis, ainda que todas façam parte do que consideramos tempo presente. Se num só quadro observamos duas cenas acontecendo, uma em primeiro plano e outra ao fundo, mais à frente, vemos as mesmas duas cenas, porém invertidas em posição e importância. O que estava no background agora está em primeiro plano e vice-versa. Entre as páginas que separam um quadro do outro houve um leve retrocesso no tempo e os dois são observados de perspectivas diferentes. Experiência semelhante também ocorre em revistas distintas da série. Nesse caso, um quadro inteiro se repete, tal e qual, indicando que os acontecimentos narrados em dois capítulos na verdade são simultâneos.

O ilustrador Gibbons também fez suas brincadeiras, criando pontos de contato meramente visuais. Numa sequência de dois quadros, um fechando e outro abrindo uma cena, ele organizou a disposição dos elementos de forma similar. O mesmo também ocorre em quadros distantes e aparentemente aleatórios, no decorrer da série. Pontos de contato através do tempo e do espaço. É dessa forma que a personagem Espectral, unindo informações coincidentes de eventos não-relacionados, enxerga uma grande verdade sobre sua vida e a de sua mãe. Algo que esteve lá o tempo todo, mas invisível à percepção. No final de tudo, a heroína representa a atitude que Moore espera do leitor de Watchmen.

O propósito da existência é lançar uma luz nas trevas do mero ser – C. G. Jung

Definitivamente, Watchmen é mais do que uma história em quadrinhos de super-heróis. Para muitos, trata-se de um estudo elaborado sobre a Teoria do Caos e a Relatividade, escondido em seus textos e ilustrações. Para outros, é a expiação de uma época e seu olhar para o que ela poderia ter se tornado. Um experimento narrativo sem precedentes na nona arte e, por isso, comparado a obras de igual teor em outras expressões, como o cinema e a literatura. Um marco para a história dos quadrinhos que, novamente, modificou seus temas e iniciou uma nova era, atraindo o público adulto para um gênero que antes era considerado infanto-juvenil. A melhor graphic novel já lançada? Isso já é impossível dizer. Afinal, as variáveis são infinitas.

Watchmen foi publicada originalmente nos EUA entre 1986 e 1987, em doze capítulos, pela DC Comics. Além de estar na lista da Time entre os 100 melhores romances do século XX, foi vencedora do Eisner Awards, voltado para os quadrinhos, e do Hugo Awards, para a literatura. No Brasil, ela estreou entre 1988 e 1989, em seis revistas com dois capítulos cada, e então encadernada em uma só edição. Ganhou reimpressão em 1999, dessa vez em doze edições, como a original norte-americana. Todas essas publicações foram feitas pela Editora Abril. Há poucos anos, foi relançada pela Opera Graphica em quatro encadernados. Mesmo assim, uma nova versão, mais luxuosa, em formato livro e recheada de material extra, está prevista para chegar às livrarias no início de março, pela Panini Books, junto com a adaptação cinematográfica.

Inicialmente, Moore havia proposto um roteiro à DC Comics que utilizava personagens recém-adquiridos pela editora da extinta Charlton Comics. A história foi recusada porque impedia a utilização dos heróis após o fim da minissérie. Moore, então, criou novas personagens, que parecessem familiares a fim de criar a empatia pretendida com o leitor. Mesmo assim, a caracterização de cada uma foi, num primeiro momento, baseada em um dos heróis da Charlton. Assim, temos o Comediante inspirado no Pacificador, o Dr. Manhattan, no Capitão Átomo, Coruja, no Besouro Azul, Ozymandias, em Thunderbolt, Rorschach, no Questão, e Espectral, em Sombra da Noite, embora sua reinterpretação guarde mais semelhanças com Canário Negro, personagem mais antiga da DC.

Sábado, 31 de Janeiro de 2009

Para assistir: A Troca

A ponta do iceberg

Escalar alguém como Angelina Jolie (O Procurado) para estrelar um drama calcado em sua protagonista pode parecer um risco para a abstração do público. Primeiro, porque Jolie marcou presença em diversos filmes de apelo fácil com interpretações genéricas, desde o pretenso erótico “Pecado Original” ao blockbuster “Alexandre”, passando pela série “Tomb Raider”, afastando-se da imagem de atriz talentosa e oscarizada por “Garota Interrompida”. Segundo, porque seu comportamento excêntrico, o trabalho humanitário, o casamento e os filhos com Brad Pitt (O Curioso Caso de Benjamin Button) levaram a vida pessoal da ex-senhora Thornton para o topo das atenções. Mais do que artista, Jolie é hoje uma celebridade pop e, nas mãos de um diretor qualquer, a tendência é que sua figura prevaleça sobre seus papéis.

Clint Eastwood (Menina de Ouro) não é um diretor qualquer. Com seu estilo tradicional e elegante de filmar, ele procura desviar os olhares lançados à atriz para a personagem que ela interpreta. Para isso, esforça-se em mergulhar o espectador no final dos anos 1920 e início da década seguinte, época em que a história se passa. A volta ao passado precede o filme propriamente dito e interfere até mesmo na logo do estúdio. Une-se a isso o figurino, as canções e a parca iluminação das cenas noturnas nas ruas de Los Angeles, em que fachos de luz quebram a escuridão predominante. Ao final da projeção, o diretor ainda reserva uma ótima referência para os cinéfilos fãs dos clássicos hollywoodianos. “Aconteceu Naquela Noite”, citado no desfecho, foi a primeira produção a vencer as cinco principais categorias do Oscar: filme, diretor, ator, atriz e roteiro adaptado.

As referências à época e o esmero da reconstituição são recompensados pela atuação de Jolie. No cartaz de “A Troca” (Changeling), o rosto à meia-luz sob um chapéu old fashioned denuncia a protagonismo da atriz. Mas quem entra no cinema esperando ver a pop star, depara-se com a personagem Christine Collins. É certo que, num primeiro momento, é difícil não enxergar a figura de Jolie, abrindo o volume dos seus lábios num sorriso. Mas basta seu filho desaparecer e a polícia, ao telefone, negar-lhe ajuda para uma mãe completamente desalentada e perdida assumir seu lugar.

Eastwood filmou sobre o roteiro de J. Michael Straczynski, nome pouco conhecido pelo público de cinema, mas bastante popular entre o de quadrinhos. Nessa mídia, ele criou os títulos Rising Stars: Estrelas Ascendentes e Poder Supremo, escreveu uma das fases mais recentes e controversas do Homem-Aranha, que culminou no fim do casamento de Peter Parker e Mary Jane, e atualmente cuida da série do herói e deus nórdico Thor, em publicação no Brasil. Em sua estreia na tela grande, Straczynski teve seu roteiro aprovado logo no primeiro tratamento.

A grande manobra da história escrita é abordar um dos crimes mais macabros dos EUA no início do século passado, conhecido como The Wineville Chicken Coop Murders, a partir do drama de Christine Collins. O desaparecimento do filho da protagonista e a devolução de uma criança totalmente estranha que afirma ser ela sua mãe é apenas o vértice de um panorama muito maior. Enquanto acompanhamos a busca de Christine, uma outra, aparentemente sem relação alguma, corre em paralelo. E ambas as tramas têm revezes inesperados.

O roteiro também atrai a simpatia do público por não se restringir em relatar os acontecimentos. Straczynski transforma Christine em uma bandeira contra a corrupção policial e, mais do que isso, contra a subjugação da mulher. Desde o início, quando vemos a dedicação da personagem ao trabalho e sua consequente ascensão, percebemos um insuspeito discurso feminista, que nenhum material de divulgação revela, mas é bastante presente no filme. O momento em que a criança desaparece, inclusive, foi alterado no roteiro para realçar esse tema. O verdadeiro Walter Collins sumiu após sair de casa para ir ao cinema. Outras mudanças também foram feitas para vilanizar ainda mais o capitão de polícia, antagonista de Christine, e ignorar detalhes mais sórdidos do caso. Quanto menos você souber antes de assistir ao filme, melhor.

Para contracenar com Jolie, “A Troca” também traz em seu elenco John Malkovich (A Lenda de Beowulf), Jeffrey Donovan (Hitch: Conselheiro Amoroso), Michael Kelly (Madrugada dos Mortos), Jason Butler Harner (O Bom Pastor), Eddie Alderson (Traídos pelo Destino), Amy Ryan (Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada), Colm Feore (O Exorcismo de Emily Rose), Denis O'Hare (Conduta de Risco), Geoff Pierson (Atrás das Linhas Inimigas) e os garotos Gattlin Griffith e Devon Conti. O filme foi exibido pela primeira vez durante o Festival de Cannes do ano passado, em que concorreu à Palma de Ouro. No último Globo de Ouro, foi indicado a duas categorias: Melhor Filme (Drama) e Melhor Atriz, para Jolie, que perdeu para Kate Winslet por “Foi Apenas Um Sonho”, uma das estreias deste final de semana no Brasil. No próximo Oscar, concorre a Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia e Melhor Atriz, de novo disputando com Winslet, desta vez por “O Leitor”.

O trailer de “A Troca”, você vê aqui.

Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Para assistir: Shortbus

Identidades explícitas

Em setembro de 2001, os norte-americanos – e mais precisamente os cidadãos de New York – tiveram medo. A partir dali, as repercussões dos fatos ocorridos fariam esse sentimento crescer exponecialmente. Um temor que iria além do desconhecido, do estrangeiro tão vizinho, e os faria olhar para dentro de si mesmos. Pela primeira vez desde que se tornaram uma potência global, os EUA questionaram abertamente o seu papel no mundo.

Em agosto de 2003, quase dois anos depois, um novo evento confrontaria os norte-americanos com sua auto-imagem e com aquela que o mundo faz deles. O apagão de NY gerou o receio de um novo atentado terrorista. Mas enquanto a imprensa internacional noticiava o caos na cidade, o jornalismo local deu ênfase à surpreendente reação das pessoas, que invadiram as ruas à luz de velas num clima de festa e solidariedade.

Esses dois eventos marcam a trajetória de “Shortbus”, o novo filme de John Cameron Mitchell, após sua estréia com “Hedwig: Rock, Amor e Traição”. A história sobre um grupo de cidadãos da Big Apple em busca de novas experiências sexuais se passa nos dias que antecederam o maior blackout da história da cidade. As personagens de “Shortbus” são um retrato de um país em crise de identidade.

Para ler esta resenha até o fim, clique aqui.

O novo filme de John Cameron Mitchell não é tão novo assim. “Shortbus” é de 2006, mas só estreou no Brasil em agosto de 2008 e, em Vitória, durante o mês de dezembro. Devido às cenas de sexo explícito, a maior parte do seu elenco é composta por atores de pouca expressão ou estreantes no cinema, como Sook-Yin Lee (Unidos pelo Sangue), Paul Dawson (A Chave do Sucesso), Lindsay Beamish (Jimmy and Judy), PJ DeBoy (Nick e Jane), Peter Stickles (A Vizinha), Alan Mandell (Queima de Arquivo), Justin Bond (Heróis Imaginários) e os novos rostos Raphael Barker, Jay Brannan e Adam Hardman. Lee, contratada da CBC, quase chegou a ser demitida pela emissora canadense por ter participado do filme. A decisão foi revogada após vários apelos a seu favor, incluindo dos cineastas Gus Van Sant (Paranoid Park) e David Cronenberg (Marcas da Violência) e da atriz Julianne Moore (Ensaio Sobre A Cegueira).

Para assistir ao trailer do filme, clique aqui. E se você quiser ler o relato, ilustrado com fotos, do citado apagão de NY, escrito por quem viveu o evento, clique aqui. Ele tem grande importância para o desfecho de “Shortbus”. A série de fotografias começa com os cidadãos percorrendo as avenidas a pé no final da tarde e, como no filme, termina com uma pequena festa no meio da rua, à noite – e o fotógrafo admirado pelos policiais não prenderem ninguém.